Transição capilar: as vantagens e os cuidados ao assumir os cachos

O cabelo é um elemento essencial na construção da identidade e da personalidade das pessoas. Muitas meninas e mulheres que não têm cabelo liso, considerado o padrão de beleza, acabam optando por alisamentos químicos. Além disso, existe a dificuldade de lidar com os cachos pela falta de produtos específicos para o tipo de cabelo, já que por muito tempo, esse fio foi desprezado também pelas marcas de cosméticos.

Ana Carolina Oliveira - Crédito: Acervo pessoal/Cortesia

Ana Carolina Oliveira – Crédito: Laura Rocha/Divulgação

Mas, nos últimos anos, a busca pelo natural vem crescendo. A aceitação dos corpos e da natureza é uma tendência cada vez mais forte. Na mídia, mais personalidades estão deixando os cabelos naturais, como Taís Araújo e Beyoncé. Assim, as mulheres se sentem mais confiantes em abandonar os alisamentos e liberar os cachos. O processo de deixar o cabelo voltar ao original é chamado de transição capilar. É demorado e exige paciência, mas renova a autoestima e ensina a amar a si mesmo. Mulheres que assumiram seus cachos resumem com uma palavra: “Liberdade”.

Emanuela Andrade - Crédito: Acervo pessoal/Cortesia

Emanuela Andrade – Crédito: Acervo pessoal/Cortesia

Ana Carolina Oliveira e Emanuela Andrade, ambas estudantes de 20 anos, começaram a alisar os cabelos cedo: aos 10 e 12 anos, respectivamente. Ana chegou a sofrer bullying na escola por não se encaixar nos “padrões”, já Emanuela não sabia cuidar dos cachos e estava sempre com eles presos. Em 2013, coincidentemente, as duas decidiram parar de fazer alisamento e entraram em transição. Segundo Emanuela, o motivo foi a falta de identificação. “Eu precisava voltar a gostar do meu cabelo, ver como ele era de verdade. Se eu não gostasse, eu podia alisar de novo”, disse ela.

Uma das maiores dificuldades de quem está passando pelo processo é lidar com as duas texturas do cabelo: a natural, que está crescendo, e a lisa, com química. Segundo Ana, este foi um dos motivos que a fizeram pensar em desistir e voltar a usar alisantes. As pessoas também tendem a não ser compreensivas. Ana Carolina chegou a ouvir que não arrumaria um emprego com cabelos cacheados. Durante o processo, Emanuela também se sentiu desmotivada. “Muita gente chegava e dizia ‘seu cabelo tá horrível! Por que você tá fazendo isso?’, conta.

Gabriella Albuquerque ainda está passando pelo processo. - Crédito: Karina Morais/Esp.DP

Gabriella Albuquerque ainda está passando pelo processo. – Crédito: Karina Morais/Esp.DP

A jornalista Gabriella Albuquerque, 28 anos, ainda está em transição. Desde o início do ano não alisa mais os cabelos, coisa que fazia desde 2009. Para ela, a principal dificuldade foi encontrar produtos para seus cachos. Enquanto está com as “duas texturas” aposta em acessórios, grampos, lenços e produtos que diminuam o efeito frisado do cabelo, além de frequentes visitas ao cabeleireiro para hidratações.

Rosane Albuquerque, cabeleireira especialista em cabelo afro e cacheado, diz que cada vez mais tem clientes que buscam  assumir os cachos. Para ela, a questão envolve praticidade, aceitação e reconhecimento de um estilo próprio. Para fazer a transição, diz ela, é preciso determinação. “Ao decidir fazer a transição, você deve estar preparada para se despedir de um visual e cortar os cabelos”, explica ela. O corte deve acontecer porque os cabelos alisados não voltarão ao normal. Isso pode ser feito aos poucos, retirando as camadas de cabelo com química.

O "Antes e Depois" de Ana Carolina - Crédito: Acervo pessoal/Cortesia

O “Antes e Depois” de Ana Carolina – Crédito: Acervo pessoal/Cortesia e Laura Rocha/Divulgação

O cabeleireiro Ed Silva explica que a transição pode ser em etapas. Primeiro, deixar de alisar. Depois, passar a fazer um relaxamento mais fraco, para não ficar com texturas tão diferentes. Mas, com o tempo,  a  solução é passar a tesoura. No “mundo” da transição existe um nome para este momento: Big Chop, ou o “grande corte”.

O Big Chop de Ana Carolina aconteceu pouco mais de um ano após o início da transição e foi um momento especial. “Quando eu vi meu cabelo natural até chorei! Foi quando percebi minha verdadeira identidade”, contou ela. Já Emanuela fez o corte depois de 10 meses e sente que o processo mudou sua visão: “É estranho pensar que isso muda você, mas eu passei a admirar todos os tipos de cabelos, deixei de lado a ideia que existe ‘cabelo ruim’ e aceito mais as pessoas como elas são”, disse.

O "Antes e Depois" de Emanuela - Crédito: Acervo pessoal/Cortesia

O “Antes e Depois” de Emanuela – Crédito: Acervo pessoal/Cortesia

Esta é a grande vantagem de assumir os cabelos naturais: a aceitação. “Não adianta querer mudar a natureza, você precisa respeitar o seu corpo”, afirma Gabriella. Para Emanuela, apesar das dificuldades todo o processo valeu a pena. “Agora eu tenho prazer de cuidar do meu cabelo, posso fazer vários estilos. Além disso, meu cabelo ajudou a definir quem eu sou hoje”, diz ela. Ana completa: “Eu amo meu cabelo! A única coisa que eu me arrependo é de ter alisado! Agora, eu quero incentivar amigos e família a aceitarem os cachos também”.

Cuidados –  Como toda liberdade tem um preço, passar por transição não é fácil. É preciso muita dedicação para cuidar dos cachos (e depois para mantê-los!). Além disso, o fio do cabelo só cresce 1,5 cm por mês, então não adianta querer apressar o tempo. 

O cabelereiro Ed Silva dá dicas para manter os cachos durante a transição - Crédito: Karina Morais/Esp.DP

O cabeleireiro Ed Silva dá dicas para manter os cachos durante a transição – Crédito: Karina Morais/Esp.DP

Algumas dicas e cuidados podem fazer o processo ser mais fácil. Ed Silva, cabeleireiro que atua em espaço de beleza no Recife, afirma que o primeiro passo é procurar um profissional que possa avaliar a condição do seu cabelo. Produtos específicos, boa limpeza e até alimentação são pontos importantes. Confira algumas dicas:

– Alimentação: o cabelo é como a pele: uma alimentação rica em vitaminas, proteínas e minerais vai ajudar o fio a crescer mais forte e saudável;
– Chapinha e escova: esses processos devem ser feitos com muito cuidado, já que o calor e o “esticamento” danifica os cabelos, deixando os fios “fritados”;
– Lavagem: a água não pode ser muito quente e os cabelos devem ser limpos, para o couro cabeludo poder “respirar”. O uso de shampoos e finalizadores são bem-vindos;

Amassar os cabelos com uma toalha ajuda a moldar os cachos - Crédito: Karina Morais/Esp.DP

Amassar os cabelos com uma toalha ajuda a moldar os cachos – Crédito: Karina Morais/Esp.DP

– Estimular os cachos: Difusores, amassar com a toalha e enrolar com fitinhas são algumas das dicas para estimular o cabelo a ficar com uma forma bonita e arrumada;
– Hidratação: unanimidade entre os profissionais, a nutrição dos cachos é primordial. Como é naturalmente um fio mais ressecado, os cabelos cacheados precisam de muita hidratação, e isso pode ser feito em casa e também no salão de beleza.

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