Tanatopraxista: a arte de maquiar a morte

Na mitologia grega Tânato era o deus da Morte, filho da Noite e irmão gêmeo de Hipno, o sono. É dele que se origina o nome tanatopraxia (tanato – morte, praxia – prática), profissão daqueles que preparam os mortos para os velórios. Ao contrário do que muitos imaginam, o trabalho não envolve apenas “maquiar o morto”. É um processo que exige conhecimento de anatomia, química e técnicas de reconstrução. A atividade parece macabra, mas, ao contrário, busca trazer conforto para os parentes daqueles que se foram, deixando uma última impressão agradável.

Luzinete dos Anjos - Crédito: Brenda Alcantara/Esp.DP

Luzinete dos Anjos – Crédito: Brenda Alcantara/Esp.DP

Tanatopraxista há mais de uma década, Luzinete dos Anjos, de 41 anos, atende de 8 a 10 pessoas mortas por dia de trabalho. Ela explica que o processo, acima de tudo, é uma questão de saúde, e não de vaidade, ao contrário do que possa parecer. A tanatopraxia elimina todas as bactérias presentes nos corpos, evitando qualquer tipo de contaminação biológica.

Luzinete dos Anjos - Crédito: Brenda Alcantara/Esp.DP

Luzinete dos Anjos – Crédito: Brenda Alcantara/Esp.DP

Primeiramente, é feita uma substituição do sangue por um fluido de conservação, que tem como base o formol. Depois, retira-se outras substâncias do corpo. Se for necessário, é feita a reconstituição do rosto. O corpo é banhado, penteado, vestido e maquiado. Em média, toda a preparação dura de 1h30 a 2h30. Luzinete explica que após o processo, o corpo pode ficar em bom estado até um mês depois da morte. A ideia é deixar a pessoa o mais perto possível da aparência que tinha em vida, sem a expressão de sofrimento.

Luzinete dos Anjos - Crédito: Brenda Alcantara/Esp.DP

Crédito: Brenda Alcantara/Esp.DP

A vocação de Luzinete talvez tenha se mostrado desde cedo. Ela conta que quando era criança, em Goiana, sua “diversão” era ir aos enterros e acompanhar os cortejos. Brincava com suas bonecas de velório, colocando-as em caixas e enterrando. Depois de alguns dias, desenterrava, para “ver como estava”. Certo dia, a mãe de uma colega viu e destruiu seus brinquedos. Ela continuou indo brincar no cemitério, até que, um dia, caiu dentro de uma cova. Depois disso, ficou traumatizada.

Anos depois, voltou aos cemitérios. Começou a trabalhar como auxiliar de serviços gerais no Morada da Paz, em Paulista. Ainda não havia a área especializada em tanatopraxia no local, e ela ia atendendo pedidos de familiares para maquiar os mortos. “Não tinha quem fizesse e eu não tinha medo, então ia ajudar”, diz ela. Depois, fez cursos em Natal, São Paulo e Curitiba para se especializar na tanatopraxia.

Luzinete dos Anjos - Crédito: Brenda Alcantara/Esp.DP

Luzinete dos Anjos – Crédito: Brenda Alcantara/Esp.DP

Segundo ela, sua missão, e de outros tanatos, é mudar a visão que as pessoas têm da morte. Para isso, ela lembra do pai, já falecido. A aparência ruim dele durante o velório a marcou profundamente. “Eu sempre faço meu trabalho pensando nele. Eu não quero que outras famílias passem pelo que eu passei. A gente não consegue tirar a dor da família, mas pode amenizar”, diz ela.

Nestes 11 anos de profissão, Luzinete já se deparou com algumas situações inusitadas. Destas, só lembra as boas. “Tudo que é ruim eu deixo aqui, não lembro e não levo comigo”, revela. Dentre as experiências que a marcaram, está a preparação e o velório de uma senhora, que deixou todas as instruções antes de morrer. O evento incluiu uma festa, com bebidas e DJ. Luzinete preparou o corpo, com a roupa e a maquiagem forte que ela queria.

Luzinete dos Anjos - Crédito: Brenda Alcantara/Esp.DP

Luzinete dos Anjos – Crédito: Brenda Alcantara/Esp.DP

Pessoalmente, Luzinete também não se priva em falar da morte. “Eu já disse aos meus filhos como quero meu velório. Quero todo mundo feliz, já separei as fotos que quero que usem. Só quero que lembrem dos momentos bons”, conta ela feliz. E a felicidade se reflete no trabalho. Apesar de algumas vezes sofrer com certo receio de outras pessoas quando conta seu ofício, Luzinete não podia ser mais realizada. “Eu amo o que faço. Faço tudo com amor, carinho e dedicação”, revela.

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