Bel Pesce comenta sobre polêmica da hamburgueria: “A gente errou feio”

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Bel Pesce fala sobre polêmica, empreendedorismo de palco, novos projetos e dá dicas para quem quer se tornar um bom empreendedor – Crédito: Divulgação

Isabel Pesce Mattos, mais conhecida como Bel Pesce, é uma das empreendedoras brasileiras mais bem-sucedidas e midiáticas dos últimos anos. A paulista de 29 anos estudou no Instituto de Tecnologia do Massachussetts (MIT), uma das universidades mais prestigiadas do mundo, tendo estagiado em empresas como Google e Microsoft. Quando estava trabalhando no Vale do Silício, Bel escreveu seu primeiro livro, A Menina do Vale, um e-book que foi distribuído gratuitamente, e teve milhões de downloads. Após o sucesso da publicação, voltou ao Brasil, onde começou a apostar no ramo da educação com a escola FazINOVA, que promove cursos de empreendedorismo e comportamento. Depois, expandiu a rede para aplicativos, plataformas e até uma editora.

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O primeiro livro escrito por Bel Pesce: A menina do Vale – Crédito: Saraiva/Divulgação

No ano passado, Bel se envolveu em uma grande polêmica. Ela lançou um crowdfunding para abrir uma hamburgueria, a Zebeleu, junto a Zé Soares e Léo Young, este último tinha acabado de vencer o programa Masterchef Brasil. As críticas surgiram pelo fato de Leo ter ganho o programa e, consequentemente, um prêmio em dinheiro e também pelo alto valor das contribuições. Logo depois, o blogueiro Izzy Nobre escreveu um texto citando que Bel mentia sobre seu currículo. A empreendedora, no entanto, respondeu afirmando que tudo havia sido um mal entendido.

Bel Pesce foi nomeada como uma das 100 pessoas mais influentes do Brasil pela revista Época, está na lista dos 30 jovens mais promissores divulgada pela Forbes e uma das 100 mulheres mais inspiradoras do mundo, segundo a BBC. Conversamos com a empreendedora durante uma visita ao Recife, nesta semana, quando palestrou em eventos do LIDE Mulher e LIDE Futuro, e falamos sobre sua carreira, experiências, polêmicas e planos para o futuro.

Como começou a sua trajetória no empreendedorismo?

Não se falava em “empreendedorismo” dessa maneira há 10, 20 anos. A minha família não tem histórico de começar negócios, nem minha mãe e nem meu pai são empresários. Mas, eu sempre fui empreendedora no sentido de querer realizar as coisas, desde criança, e não sabia que isso era ser empreendedor. Quando eu estava no primeiro ano de faculdade, participei de uma competição de planos de negócios, no qual a gente aprendia o básico sobre empreender. Tudo ficou muito claro para mim quando eles falaram que o empreendedor “é uma pessoa que olha para o mundo, vê uma necessidade que ainda não tem uma solução bem resolvida e tenta desenhar essa solução, ajudando as pessoas”. Achei isso o máximo!

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Bel Pesce está no comando de várias empresas, entre elas a FazInova – Crédito: Paulo Fridman/Divulgação

Quando eu comecei a relembrar as coisas que eu fazia quando era criança, como os sites que eu criava, vi que estava sempre tentando resolver um problema. Eu já tentei inventar uma máquina que o chocolate voava para sua boca. Para mim, como criança, isso era uma necessidade. Comecei a perceber que a maneira que eu via o mundo, já era como “uma solucionadora de necessidades”, eu tinha isso no meu DNA. Foi uma questão só de entender que empreendedorismo já era o que eu fazia, já estava nesse caminho.

Como foi sua experiência no Instituto de Tecnologia do Massachussetts (MIT)?
O MIT é um lugar muito especial. Obviamente é muito competitivo para entrar, por ser uma das faculdades mais difíceis do mundo, mas, ao mesmo tempo, as pessoas são muito legais. São pessoas muito generosas, que adoram trabalhar em equipe, que adoram se ajudar, e isso para o mundo do empreendedorismo é muito importante. Então, por mais que o Vale do Silício tenha tido uma importância muito grande no meu modo de pensar, o que eu vivi no MIT, foi muito importante para a minha formação. 

Você começou sua carreira na área de tecnologia, como programadora. Por que decidiu empreender na área de educação?
Quando eu escrevi meu primeiro livro,  percebi que era possível causar uma transformação muito forte com conteúdos que faziam a pessoa agir. Na prática, quando eu decidi ir para a área de educação foi porque percebi que era uma forma de transformação e eu acredito que uma real empresa é aquela que consegue suprir uma necessidade. Existe uma necessidade gigantesca no mundo da educação. É engraçado, porque ter um conteúdo que te leva a agir geram ações, e essas ações podem ser mapeadas e a partir daí geram dados que podem ser usados na tecnologia. Conforme os resultados foram acontecendo, pudemos criar uma rede de inteligência em cima dos dados. A educação foi um chamado do meu coração: “se esse livro deu tanto impacto, imagina uma coisa mais estruturada, com metodologias, mais programas… Eu devo pelo menos tentar”. Tudo funciona como uma forma de fazer a pessoa agir em cima de todas as coisas que ela lê e aprende.

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Quais as principais habilidades para se tornar um bom empreendedor?
Tem gente que nunca abriu uma empresa e é um ótimo empreendedor. A real habilidade de empreender tem a ver com querer achar maneiras diferentes e melhores de fazer as coisas e se importar com todos ao redor, fazer com que todos sintam que também fazem parte do negócio. As habilidades empreendedoras  são comportamentais, de crescimento, de relacionamento, de melhoria e de entrega. Abrir uma empresa não é para todo mundo e não precisa ser.

Você teve alguma dificuldade ao começar a trabalhar na área de tecnologia formada, em sua maioria, por homens?

No Instituto de Tecnologia do Massachussetts,  51% dos alunos são da ala feminina. No meu curso, a maioria era formada por homens, mas eu também tive experiências em outras áreas, então digamos que foi uma experiência muito mista. Já no Vale do Silício, eu era uma minoria pesada: mulher, imigrante, brasileira. E eu acho que em prol de tentar melhorar, eu tento ignorar coisas para não me machucar. Acredito que é algo que a gente tem que falar, mas por outro lado, não se pode fazer com que isso vire uma trava na sua vida. A melhor resposta que você pode dar para um homem que acha que você vai ser menor em seu trabalho, é fazer o melhor da sua vida a ponto de ele ficar envergonhado de ter pensado isso de você. É preciso ter mulher na tecnologia, ter mulheres que contam suas histórias, e ver isso como uma possibilidade de carreira.

Você pode explicar um pouco como funciona cada uma das suas empresas?
A gente tem um miniconglomerado de empresas de educação, que focam em aprendizagem, buscando entender como as pessoas aprendem hoje em dia e como elas usam isso a favor de si. A FazINOVA é uma escola de metodologia própria que busca transformar o seu dia a dia em aprendizados para o que você quer fazer.
A Enkla é uma editora que busca descomplicar o que é complicado, sejam temas como crise de refugiados ou inovação. A gente faz de forma acessível, seja na linguagem, no formato, na plataforma ou no preço.
O INSPRD ajuda você a criar hábitos positivos baseados nas pessoas que você segue e admira nas redes sociais. Temos também o CoolRious,  um site de curiosidades e a BeDream, uma plataforma de mentoria, que ajuda pessoas a realizarem um objetivo. Para ‘tocar’ tudo isso, temos uma empresa de marketing e comunicação: a Figurinhas

Bel Pesce com Leonardo Young, vencedor do Masterchef - Foto: Reprodução/Instagram

Bel Pesce com Leonardo Young, vencedor do Masterchef – Foto: Reprodução/Instagram

No ano passado, você se envolveu em uma polêmica ao tentar criar um financiamento coletivo – que tinha como meta arrecadar R$ 200 mil – para abrir uma hamburgueria com Leo Young, o vencedor do Masterchef Brasil, que revoltou muitos brasileiros. Logo depois, um blogueiro soltou um texto nas redes sociais com várias críticas a seu respeito. Como lidou com tudo isso?

O que aconteceu foi o seguinte: quem me seguia e me conhecia antes, sabe que nada do que foi falado na polêmica era segredo. A questão de ter um estágio na Microsoft, disseram que era um trabalho. Eu sempre disse que era um estágio! Se você procurar na internet, tem 99 vídeos em que eu falo sobre o estágio e talvez tenha apenas um que cortaram a minha explicação. E então usaram esse vídeo. Disseram que eu tinha majors (diplomas) em outros cursos, mas na verdade era um “minor” (quando o aluno assiste algumas aulas de outros cursos). Eu sempre expliquei isso! Entre 1 mil vídeos que já gravei, podem ter dois que não dizem isso, e por isso, gerou um estardalhaço.

A gente errou feio na hamburgueria. Não era a hora certa, o timing de ter um sócio que tinha ganho um programa de alcance nacional também estava errado. Crowdfunding no Brasil é visto como “vaquinha”. Eu tinha analisado e feito duas campanhas de crowdfunding que eram das mais bem-sucedidas do país e achei que isso poderia se repetir. Mas eu não entendi que estava falando para outro público. Foi aí que a gente errou. Não teve nenhum sumiço, eu expliquei no dia seguinte, mas ninguém queria ouvir. Eu acabei caindo na “zoeira” da Internet. Eu aprendi muito com isso, foi algo que agregou muito na minha vida.

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Sobre a questão do empreendedorismo de palco, existe uma coisa que é preciso ser falado: existe muita gente na internet brasileira que lança cursos e promove “coisas” e quem não conhece minha trajetória acha que eu também sou uma dessas pessoas.  Existem críticas sobre o empreendedorismo de palco que realmente são muito válidas, mas eu sou a pessoa que vai contra esse momento. Dizem: “o livro dela é muito positivo”. E eu respondo: “então você não leu meu livro! Pega o livro e lê pra ver o que eu falo”. Eu sou a pessoa que mais tentou contribuir para desmistificar o romantismo no empreendedorismo. Existe uma coisa muito positiva no que eu falo e no que eu vivo, que é tentar despertar nas pessoas a paixão por algo. Mas querem que eu faça palestra “desmotivacional?” Não! Então, no final, eu fiquei conhecida por muito mais pessoas, vindas de uma coisa negativa.

As pessoas preferem acreditar no que estão lendo do que ir pesquisar ou dar o benefício da dúvida. Às vezes, as coisas que a gente mais contribui, quando faz algo de forma diferente, é onde recebemos mais críticas. O mais surreal é que o empreendedorismo de palco é o sensacionalismo que fizeram com a minha história. Só que eu não vou ficar o dia inteiro falando para quem não quer ouvir e nem dar atenção para alguém que quer confete por tentar destruir outras pessoas. Eu não falo mal das pessoas, nunca. Não entro em ringue. Meu jogo é ajudar as pessoas, sendo útil, sendo produtiva. Então era uma coisa muito complicada, era querer dar visibilidade para alguém que era mais “palco” impossível. Entende a grande ironia?

Quais são as dicas mais simples para alguém que quer empreender?
A melhor dica é viver a vida com um olhar curioso e ser grato por tudo que acontece. É você olhar para o seu redor e mostrar uma curiosidade, por exemplo: “Como isso é feito? Como estão fazendo isso de forma mais eficaz? Por que isso deu errado?”. Esse olhar vai te agregar e você vai aprender com os erros e com os acertos dos outros. Isso vai te fazer criar boas coisas.

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 Você acha que criar uma marca pessoal é tão importante quanto outros pontos em uma empresa?
Qualquer empresa quando começa, o DNA do fundador tem um impacto absurdo. Qualquer uma, pode ser uma sem visibilidade nenhuma na internet ou na comunicação. O fundador vai influenciar em tudo a cultura de todos. Como o meu livro bombou, depois alguns vídeos também viralizaram, nossos podcasts… Tudo isso acabou trazendo uma presença importante na internet e a “Bel” acabou virando uma marca. Mas isso não foi planejado, tanto que se fosse, algumas coisas não teriam acontecido. É realmente humano. Sou eu. Claro, agora virou uma marca, nós temos uma estratégia de posicionamento que é mostrar a questão do “olhar curioso”, que se refere a mim e está voltado para o mundo. Mas na questão da marca pessoal, o mais importante é mostrar o valores e o que é inegociável dentro de uma empresa, do que ter seguidores. Hoje em dia, o que faz um business ficar de pé é a proposta de valor, distribuição e engajamento. Mas eu acredito que, em um primeiro momento, vale mais pelos valores e pela cultura do que pela distribuição.

Quais são os projetos para o futuro?
As nossas empresas estão crescendo bastante, tanto no Brasil quanto no resto do mundo. Estamos lançando uma expansão internacional com cursos em inglês e árabe, focados em protagonismo, gestão de negócio e resolução criativa de problemas. Cada uma das empresas que eu mencionei antes tem uma estratégia específica. O mesmo trabalho que a gente fez pra solidificar o trabalho da FazINOVA e Enkla, que existem há mais tempo, agora estamos fazendo com os outros. E o que vai ficar mais claro é como eles se comunicam e como vão crescer juntos. Essa é a meta.

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