Tudo sobre o mundo das joias: a designer Cris Lemos revela o processo de criação

Cris Lemos - Crédito: Paulo Higor Nunes

Cris Lemos – Crédito: Paulo Higor Nunes

Muito além do que se vê, joias podem significar bem mais do que um acessório. As peças têm significado, podem ser especiais, são atemporais e capazes de dizer muito sobre quem as usa. Com influência desde criança, vendo seu pai presentear a mãe com joias, Cristiana Lemos ficou fascinada por arte e seus campos de atuação. A relação com as joias foi se acentuar na universidade.

Crédito: Paulo Higor Nunes

Crédito: Paulo Higor Nunes

Cris decidiu cursar design de produto na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e foi neste período que percebeu a sua vocação para o desenho de joias. Após alguns cursos com ourives – quem executa ou vende artigos de ouro ou prata – e especializações em Londres, vislumbrou a possibilidade de lançar uma grife. A ideia rendeu mais do que concretização da loja física, como também garantiu a visibilidade da marca em cidades como Caruaru, João Pessoa, São Paulo e Vitória do Espírito Santo, por meio de eventos segmentados para o público-alvo da empresa.

Crédito: Paulo Higor Nunes

Crédito: Paulo Higor Nunes

Segundo Cristiana, a inspiração surge em tudo o que vê. Seja nos museus ou em objetos simples do dia a dia como os lustres e botões. Tudo vira arte. “Basta acrescentar conceito, aliado a design e criatividade”, declara. O traço geométrico marca o estilo moderno das coleções, com presença marcante de elementos vintage que remetem a épocas passadas, a exemplo da coleção Toy, inspiradas nos brinquedos e temas infantis, traduzem história e situam pessoas no tempo. Com acabamento primoroso, a matéria-prima é cuidadosamente transformada em peças exclusivas que caracterizam um estilo próprio de ser com muita originalidade. Mais do que adornos, as joias são verdadeiras obras de arte.

Em entrevista exclusiva ao Blog João Alberto, a designer pernambucana contou sobre a sua trajetória, explicou sobre o processo de criação e fabricação das suas joias, e planos para o futuro. Confira: 

Como começou a sua trajetória como designer de joias?

Eu me formei em design de produtos. Quando entrei na faculdade, a ideia era fazer mobiliária, mas durante o curso tive o contato com a ourivesaria – a arte de trabalhar com metais preciosos (especificamente prata e ouro), na fabricação de joias e ornamentos.  Foi ali que me vi sentada na bancada para fazer a joia, o que poderia ser concretizado, e etc. A paixão por joias sempre existiu, mas foi na faculdade que eu decidi seguir o ramo. Meu projeto de conclusão do curso foi a produção de uma joia. Depois, fiz um curso de criação de joias contemporâneas, em Londres, no Centro de Artes e Design, Central San Martin, na Universidade de Arte da cidade, além de outros cursos de curta extensão. Era algo que aqui não existia e eu procurei me profissionalizar. A ideia era lançar uma marca que tivesse destaque para o design em relação à joalheria. Atualmente, o que mais chama minha atenção é essa leitura de peça moderna, que está atrelada às joias do momento, da moda. São peças contemporâneas, mas eternas.

Crédito: Lufre

Crédito: Lufre

Como é o processo de criação das joias?

Eu tenho um traço que é muito forte. A partir de uma mesma peça, busco fazer várias formas diferentes. A coleção Módulos é a mais icônica da história da Cis. Comecei com seis peças e hoje são mais de 50. Gosto muito da história também. Tenho as minhas duas últimas coleções: Flow e Múltipla, que são também derivações. Desta vez, é algo bem orgânico, diferente. O que eu quero dizer é que não existe caminho único, o traço de quem cria é a essência. Depende da leitura de quem cria. O que eu acho legal é que a pessoa quando vê a joia da Cis, ela se identifica. A loja tem uma identidade.

Como é a fabricação? 

A produção é 95% artesanal, handmade: são produtos exclusivos. A maioria das empresas de joias fabricam de maneira industrial. A gente continua tentando usar a ourivesaria: aquela história de sentar na bancada para fazer à mão as joias, uma a uma. No momento, temos cinco ourives na bancada, aqui em Pernambuco, em atelier próprio, localizado em Boa Viagem.

Crédito: Studio Clicka

Crédito: Estúdio Clicka

Como é o processo de laminação?

Tudo é realizado no atelier. A gente compra o ouro puro 24K, funde, a questão do fio, da espessura da chapa… É realmente tudo no atelier. Somente as correntes que geralmente são compradas.

Qual a importância de uma joia?

Eu acho que a joia é um elemento que vai lhe acompanhar. Ela tem um caráter eterno, de passar de geração para geração. É um investimento financeiro também. São oito anos de Cis Joias, tudo é comprado em dólar. E tudo valorizou, o ouro valorizou muito. Tem um valor agregado do material da joia. Não é só afetivo, mas financeiro também. E quem está ligado à moda, sabe que existem momentos de se ganhar uma joia, uma simbologia para isso. É sempre a melhor escolha.

Crédito: Lufre

Crédito: Lufre

Quais materiais e pedras você usa?

Eu uso muito a peça limpa, só o ouro amarelo. Mas também uso peças cravejadas de brilhante e diamante. Geralmente, só nas joias masculinas que usamos a prata. O ouro branco quando é uma peça cravejada de diamante, porque ressalta.  Sobre as pedras, usamos as mais variadas: esmeralda, safira, rubi, topázio azul, topázio incolor, ágata branca, citrino, quartzo rosa, granada, turmalina rosa, turmalina verde e pérola. Particularmente, gosto bastante das pérolas, dão ar de joias mais clássicas, apesar de serem em uma versão mais moderna.

Colar com pérolas e topázio azul - Crédito: Divulgação

Colar CiS com pérolas e topázio azul – Crédito: Divulgação

Qual a principal diferença de suas peças em relação às grandes joalherias?

Eu acho que é a exclusividade da produção e a criação. Algumas joalherias tem uma criação muito forte, mas muitas outras apenas reproduzem. Temos peças exclusivas, design e produção própria.

Quais os significados de uma joia?

Uma joia diz muito da pessoa. Acho que a joia normalmente simboliza algumas emoções, normalmente relacionado a algum momento ou sentimento. Traduz muito de alguém. Joia não é aquela coisa que você compra na dúvida. É algo muito pensado. Na compra da joia, tem que ter uma paquera, depois um namoro e só depois casar.

Crédito: Lufre

Crédito: Lufre

Você já produziu alguma joia atendendo a pedidos especiais?

A princípio, eu evitei muito. Mas hoje chega de uma maneira natural, principalmente cliente que já é consumidor assíduo da marca. Tive exemplos de uma noiva que queria um brinco, faço cabeças de noiva…  A gente faz um desenho, apresenta e lança o orçamento. É o tipo de joia que tenho muito apego porque significa que o cliente confia muito na Cis.

Qual é o público-alvo da Cis Joias?

O público-alvo é de classe média alta, mulheres de 30 a 60 anos. Por se tratar de joias, isso já restringe o público naturalmente. Homens são poucos. Mas a Cis Joias tem uma leitura muito jovem, dentro de uma mesma leitura de desenho, em que pessoas de várias faixas etárias se agradam. Acho que a mulher independente é nosso principal cliente. Também acho interessante o fato que a gente conseguiu fisgar clientes assíduos de joias e também aqueles que não eram clientes de joalheria.

Crédito: Paulo Higor Nunes

Crédito: Paulo Higor Nunes

Quais as próximas tendências?

Uma tendência é o choker, um colar justo no pescoço. Já faz dois anos que lançamos nosso primeiro modelo. Foi uma tendência que se consolidou e vamos continuar investindo. Produzimos desde correntes mais finas até peças mais ricas. E desde o começo, gostamos de brincos que sobem na orelha. A partir de agora, estamos produzindo um tipo de acabamento manual na broca, que é um riscado, com fitas de brilhante em cima. Fica lindo. Diamante e pérolas são tendências atuais. Mas, na minha próxima coleção, vou investir em pedras que não tenho muito o costume de usar: a safira e o rubi.

Crédito: Paulo Higor Nunes

Crédito: Paulo Higor Nunes

Quais os novos planos no universo das joias?

A gente começou um trabalho em São Paulo, relançamos um plano tentando expandir do Recife para fora do estado, mas de maneira muito orgânica. A ideia é  fazer esse trabalho aos poucos, conquistando outros mercados. Vamos fazer tudo com muita calma e preocupados em não perder a essência. Quando pensei em querer fazer trabalho para atingir outros mercados fora do estado, precisei organizar a maturação do atelier primeiro para dar conta das demandas. 

Author: Júlia Molinari

Share This Post On