Em memória do pai

Crédito: Julio Jacobina/DP

Roque de Brito Alves/Crédito: Julio Jacobina/DP

O jurista Roque de Brito Alves publicará este artigo com o título Em Memória do Pai, no próximo número da revista Registra, da Academia Pernambucana de Letras Jurídicas.

1 – Durante mais de 40 anos em Pernambuco e no Nordeste, o meu inesquecível pai José de Britto Alves (amigo e mestre maior) honrou a advocacia criminal por sua ética, saber e amor à profissão, tornando-se um símbolo, sempre respeitado e elogiado por todos que o conheciam.

Jamais tendo pedido ou recebido favores de políticos ou bajulado os poderosos da época, criou e educou os seus seis (6) filhos somente com o seu trabalho profissional, apenas findo com a sua morte em 1963. Não deixou herança de bens materiais porém a herança moral de um nome ainda hoje tradicional e que atualmente o autor destas linhas e o seu irmão João Baptista como os únicos filhos remanescentes procu­ram manter acima de qualquer outra coisa, o que anteriormente fora preservado pelos saudosos ir­mãos José, Adelina, Antônio e Se­bastião. O meu pai tornou-se mais feliz em sua vida por ter encontra­do como esposa Maria Olegária, minha mãe, que foi a mulher virtuo­sa e forte de que nos fala a Bíblia.

2 – O meu saudoso pai nunca trans­formou a sua banca de advocacia em “banca de negócios”, era uma advo­cacia limpa, honesta, sem uso de “trá­fico de influência” ou de “amizade interesseira” perante a justiça, tendo ficado famoso por sua oratória no Tribunal do júri, com argumenta­ção irrespondível, atuando em casos criminais de maiores repercussões no Nordeste, sempre na defesa.

Era possuidor de uma prosa encant­adora, amante das letras e das artes, gostava muito de óperas (principalmente as italianas), colecionador de antiguidades (sobretudo de porcela­na francesa), um verdadeiro gentleman em sua conduta, muito social, tendo ficado célebres os seus almoços aos domingos no antigo sobrado da Rua Barão de São Borja quando recebia amigos e intelectuais. Católico, muito caridoso, gostava sempre de vestir roupa de linho branco, usar chapéu do Chile, nunca dei­xando de rezar pela alma da vítima antes de dirigir-se para a sessão do júri como advogado de defesa.

3 – Formado em 1911, em nossa gloriosa Faculdade de Direito, em turma ilustre, foi promotor público no Recife, demitido por um governador que posteriormente solicitou-lhe que defendesse um correligionário…; na Revolução de 1930, a sua casa na rua Joaquim Nabuco, na Capunga, ia ser incendiada pela multidão (que in­cendiara antes o palacete de Pessoa de Queiroz e a residência do meu tio Demócrito de Souza), pois soubera que iria defender João Dantas, assassino de João Pessoa, governador da Paraíba, porém a casa foi salva por um jovem que começou a discursar dizendo que o meu pai era defensor dos pobres, a multidão aplaudiu e retirou-se para queimar outras casas. Muitos anos depois, com o meu sau­doso irmão Antônio à frente defendemos esse cidadão (já idoso) acusado de lesão corporal.

4 – Destaquemos (neste artigo breve) que durante muito tempo foi presidente do Tribu­nal de Ética da OAB local, e incluído, certa vez, pelo Tribunal de justiça na lista tríplice como advogado pelo 5° constitucional para ser desembargador, porém não foi no­meado por um governador gaúcho estranho a Pernambuco pois “não -tinha prestígio político”, não fora ao Palácio do Governo pedir, também não pedira a ninguém de influência política… Aliás, todos sabem de há muito no Brasil que o requisito “notável saber jurídico” do texto constitucional para alguém ser membro de tribunal – quando depen­de de nomeação pelo Poder Executi­vo – deve ser verdadeiramente lido, in­terpretado ou aplicado em termos de “notável prestígio político”…, com as honrosas exceções.

5 – O nome de meu inesquecível pai consta somente de uma pequena rua de um subúrbio do Recife, tão escon­dida que tivemos dificuldade de en­contrá-la e também de uma prisão em Arcoverde. Não existe o seu nome em nenhuma Subsecção da OAB e nem em nenhum forum do nosso Estado, nunca tendo recebido home­nagem alguma, sendo Pernambuco ingrato em tal sentido. Também, la­mentavelmente jamais foi cumpri­da decisão do Tribunal de justiça de denominar com o seu nome uma sala de Sessão do Tribunal do júri no prédio do Forum Des. Thomaz de Aquino Cyrillo Wanderley e – apesar do nosso protesto – nem no atual Forum Des. Rodolfo Aureliano.

6 – José de Britto Alves, meu pai, amigo e mestre maior, sempre advo­gado, dignificou a sua nobre profis­são, viveu como cidadão honrado, realizou-se como pai de família, foi exemplo verdadeiro e maior de al­guém que se reconhece e se admira como homem de bem.

 

Autor:: João Alberto

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