Murilo Gun lança novo livro, documentário e comemora 20 anos de carreira com festa no Recife

Murilo Gun – Crédito: Multishow/Reprodução

Murilo Gun se define como palestrante, comediante e professor de criatividade. Parece muito, mas todas essas atividades se completam. Aos 12 anos, o recifense criou seu primeiro site pessoal, quando a internet no Brasil ainda engatinhava. Com o site, ganhou prêmios de Melhor Site Pessoal no iBest. Aos 14 anos, foi convidado para uma entrevista no programa de Jô Soares. Com 17 anos, fundou o Peça Comida, um dos primeiros serviços que permitia os usuários pedirem comida pela internet.

Formado em Administração, largou o empresariado em 2008 para trabalhar como comediante, fazendo shows por todo o país. Participou de programas de TV como República do Stand-up (Comedy Central), Amigos da onça (SBT) e A Pergunta que não quer calar (Multishow). Depois, começou a se especializar em humor corporativo, fazendo palestras para empresas sobre futuro, criatividade e empreendedorismo.

A grande virada aconteceu em 2014, quando foi selecionado para participar da NASA Research Park, no Vale do Silício. Lá, ele estudou inovações na Singularity University durante 10 semanas. Na volta, decidiu criar sua própria escola online de criatividade, a Keep Learning School. Com seu curso Reaprendizagem Criativa, ele ensina pessoas de todo o Brasil a se reconectarem com a criatividade inata do ser humano.

No final do ano, para celebrar os 20 anos de carreira – desde que recebeu seu primeiro prêmio – Murilo irá organizar um grande evento no Recife. A data ainda vai marcar o lançamento de seu livro sobre criatividade e de um documentário que conta a história do site Peça Comida. Em entrevista ao Blog João Alberto, ele falou sobre as necessidades de ser criativo nos dias atuais, como funciona sua escola, planos para o futuro e as novidades para sua carreira como comediante. Confira:

Como iniciou sua trajetória no empreendedorismo?
A minha trajetória como empreendedor começou quando eu tinha 13 anos de idade, quando ainda estava começando a internet no Brasil, em 1995. Na verdade, eu tinha 12 anos. Meu pai me deu um computador e eu comecei a brincar e resolvi fazer um site pessoal, que ganhou prêmios e tal… Foi um empreendimento, não chegou a ser uma empresa aberta, mas empreender não é só abrir empresas. Eu tinha receita mas não tinha uma empresa aberta. Vendia banners publicitários no meu site, ganhava comissões como afiliado… Esse foi meu primeiro empreendimento.

Alguns anos depois, em 2000, eu montei uma empresa, que fazia sites. Depois eu criei um portal para pedir comida pela internet e depois, empreendi novamente entrando como sócio na W3, que era uma empresa de tecnologia. Até hoje, já há 20 anos, foram várias formas de empreender. Até na comédia mesmo, eu empreendia. Empreender é uma atitude de protagonismo. É você parar e dizer ‘como eu faço agora? Como eu vou viver disso?’. Criar seu posicionamento, criar sua marca, seu modelo de negócio ou produto, isso é empreender. Era o que eu fazia na comédia. Você pode empreender individualmente ou empresarialmente. Todo profissional liberal que atua sozinho, mesmo sem ter escritório e funcionários, ele empreende. Hoje em dia, eu tenho uma startup, a Keep Learning School, que é um empreendimento empresarial.

Crédito: Reprodução/Instagram

– Como funciona sua plataforma de educação online?
A Keep Learning School é uma escola online com um portfólio de cursos que começou com ‘criatividade’, mas estamos evoluindo. E a gente criou uma plataforma própria de aulas. Começamos usando plataformas de mercado mas eu pensei: ‘para criar uma escola diferenciada de aprendizagem eu preciso ter a melhor plataforma’. Então eu fui, em 2016, para uma feira em Londres, chamada Learning Technologies, para pesquisar as melhores plataformas e softwares de educação do mundo. Eu tinha uma verba para comprar lá, mas eu vi que todo mundo estava tentando criar o seu software, cada um com sua visão. Mas a minha sensação foi de que não existe “jeito certo” em que seres humanos adultos vão aprender à distância. A gente ainda está aprendendo qual é esse jeito.

Então qualquer software que eu comprasse lá, eu iria estar me colocando dentro da caixa e da visão daquela empresa sobre formas de aprendizagem. Como eu acredito que ninguém ainda tem essa visão clara – na verdade são muitas visões – eu voltei da feira com a decisão de criar minha própria plataforma. Passamos mais de um ano criando. A plataforma permite que você, além de assistir as vídeo aulas, deixa você fazer exercícios, privados e outros públicos para compartilhar com a turma. Tem uma ferramenta de networking, uma espécie de LinkedIn interno, onde você pode buscar colegas de turma ou de outras turmas do curso, por cidade, por interesse…

Tem uma ferramenta de anotações – quando você clica nele a aula pausa, para você não perder nada, e quando termina de escrever a aula volta. Cada post it anotado fica associado àquele momento da aula. Então a gente foi criando coisas com pesquisa, lembretes… Eu acredito que para você inovar nas formas de aprendizagem, é preciso ter controle sobre o ambiente. É como se você dissesse que quer inovar numa aula presencial mas não pode mudar as cadeiras de lugar nem posso colocar nada nas paredes. É difícil isso, porque o ambiente faz parte de tudo. No ambiente de aulas à distância, a plataforma é a sala de aula. E é preciso que a gente possa fazer o que a gente quiser.

Quais os cursos que vocês oferecem?
A escola surgiu a partir do meu curso de “Reaprendizagem Criativa”, que é um curso que eu comecei em Recife, presencial, em uma escola em Boa Viagem. Fiz também em São Paulo e ele deu muito certo. Eu não fiz muitas turmas, mas consegui validar que ele dava certo e era legal. Depois que eu voltei da Singularity (a universidade da NASA), louco para construir coisas de maior impacto, resolvi levar esse curso para o mundo online, para impactar mais pessoas. E para poder usar recursos tecnológicos para ajudar na aprendizagem.

O Reaprendizagem Criativa é o grande carro-chefe da Learning School ainda. A gente criou outros cursos, como o Técnicas de Reaprendizagem, que é derivado dele, que é mais ferramental, de metodologias de criatividade. A gente agora tem um novo curso sobre Apresentações, que a gente lançou como teste, mas será lançado de forma oficial. É um curso que eu desconstruo aulas e palestras minhas para ajudar as pessoas a construir as suas próprias apresentações. A gente teve também experiências com outros professores. O Gustavo Succi fez o Como Reencontrar sua Arte, que é de autoconhecimento, e Tânia Mujica fez um curso de Meditação como Ferramenta de Inteligência Emocional. Então, por enquanto, o Reaprendizagem Criativa ainda representa 90% da base de alunos da empresa, mas a gente ta abrindo o portfólio para mais produtos, sempre conectados com criatividade, que é o DNA da empresa.

A gente também se posiciona como um “hub” de produtos educacionais online. Nós também temos cursos parceiros. Por exemplo, o Gabriel Goffi tem um curso chamado Moving Up, que é um curso muito focado em produtividade, alta performance. Então a gente considera que é um curso do portfólio da Keep Learning School, mesmo não sendo nosso. A gente divulga e comercializa e dá alguns conteúdos complementares a esse curso. Um pré-requisito para agregar esses cursos é que eu ou alguém da equipe tenha sido aluno do curso, e viu que o curso é transformador. E então colocamos no portfólio como algo que a gente recomenda e vende.

O que significa Reaprendizagem criativa?
O curso tem como premissa o fato que nós nascemos criativos – crianças são extremamente criativas, imaginativas, “viajam”, surpreendem nas respostas, sempre veem as coisas de um ponto de vista diferente – e ao longo da vida a gente vai crescendo e vai perdendo essa criatividade. Vai sendo bloqueado ao longo da vida. Por diversos fatores, que começam em casa, quando pais e mães mesmo sem querer acabam moldando uma forma de pensar – que fazia sentido no passado mas não faz mais nas condições atuais de mundo. Então vem a escola, as próprias condições do mercado… ou seja, esse papo de “pensar fora da caixa”, que fala-se muito, na verdade a gente já nasceu fora da caixa. O normal da espécie humana é ser fora da caixa, mas a gente é “convidado forçadamente”, ou domesticado, a entrar nos padrões. E a gente como adulto tem dificuldade de pensar diferente, inovar e ser criativo.. Então o curso é pra gente reaprender a ser criativo, como as crianças.

Mas ele acaba sendo muito mais que criatividade. É um curso de reinvenção, de descoberta. É engraçado que a grande maioria dos alunos não são de indústrias criativas. Não são designers, publicitários, artistas… São advogados, médicos, engenheiros, servidores públicos… São pessoas que têm desafios, problemas para resolver, e não querem mais se contentar com as respostas padrões que a gente automaticamente dá. A qualidade das respostas que a gente dá aos nossos problemas é o que define a nossa vida. Se você vive uma vida que, mediante todos os desafios, oportunidades ou decisões, você sempre dá o mesmo tipo de solução que todo mundo, sempre age da mesma forma, você é um robô. Está vivendo no automático. O curso vem para dar uma chacoalhada e fazer as pessoas abrirem os olhos para um novo universo, que a gente perdeu durante a vida. Já são quase 4 mil alunos e histórias muito legais de pessoas transformadas pelo curso, que mudaram a forma de pensar.

Crédito: Reprodução/Youtube

 Para você, qual a importância da criatividade na sociedade atual?
Criatividade é uma das habilidades que mais vai fazer a diferença – que já faz a diferença no mundo atual – em um futuro próximo. A gente vive um mundo cada vez mais tecnológico, com softwares, robôs, que vão cada vez fazer mais parte da nossa vida. E o que vai diferenciar os humanos das máquinas são as habilidades que as máquinas não podem ter. Como a criatividade, a capacidade de pensar diferente. A máquina é muito boa em seguir padrões, em ser lógico, mas o que vai diferenciar é a capacidade de não seguir padrões e não ser apenas lógico todo o tempo. E isso nós temos, se trabalharmos para termos. Porque na vida padrão a gente acaba sendo padrão, indo no caminho de todo mundo. É louco porque todo mundo percebe que o mundo está mudando em uma velocidade inédita e isso significa novos problemas, novos desafios, e soluções antigas não resolvem problemas novos. Não vai funcionar. Para soluções novas, tem que ter criatividade para resolver esses problemas.

O que podemos fazer para sermos mais inovadores – em qualquer área de nossas vidas?
Tem muitas formas. O que é ser criativo? É dar soluções mais criativas para todos os problemas que aparecem em nosso dia. E para dar soluções criativas, é preciso ser apaixonado por soluções criativas que os outros dão para outros tipos de problemas. Como assim? A criatividade utiliza muito a analogia, por exemplo, uma solução que o vizinho deu para prender o cachorro na jaula. Eu posso fazer uma analogia da solução criativa dele e isso pode resolver um problema do meu software; isso pode me inspirar para resolver um problema do acesso do meu aluno à plataforma do meu curso. Um grande passo para ser criativo é começar a ficar mais atento à criatividade no dia a dia. É admirar a beleza de como aquela pastelaria fez o cardápio, ou de como o cara que pega o lixo na rua fez para amassar a latinha. Então, passar a admirar as soluções criativas, lembrar delas e, conscientemente ou inconscientemente, daqui há 10 anos, estar usando aquela estrutura análoga para resolver um problema seu.

Quais os novos projetos, cursos e palestras que você está preparando?
A gente está buscando aumentar o portfólio de cursos da escola, agregando professores parceiros e desenvolvendo cursos meus também. O próximo assunto que eu vou ministrar será o CriCriCri: Criando Crianças Criativas,  que surgiu do curso de criatividade, com o desafio de pensar as crianças que estão bloqueadas. ‘Como nós podemos criá-las evitando que elas bloqueiam a criatividade?’. É uma espécie do Reaprendizagem Criativa ao contrário. Outro assunto é Como aprender a aprender. Eu sempre tive muita facilidade da aprendizagem e, em função da Keep Learning School e do nosso software, tive que me aprofundar em como os adultos aprendem. O nome da escola já diz isso (“continue aprendendo”), vamos seguindo a premissa de que a gente não para de aprender quando acaba a faculdade ou um curso. A gente tem que ser um “aprendedor” eterno. Eu já criei uma palestra sobre isso e potencialmente pode virar um conteúdo maior e mais profundo.

E no final do ano, eu vou lançar um livro pela editora Sextante, sobre criatividade. Também vou fazer um grande evento no Recife, em comemoração aos 20 anos de carreira. Em 1997, eu  ganhei meu primeiro prêmio de internet. Vai estar na mesma época do lançamento do livro e vai conectar também com um documentário que está sendo feito sobre a empresa que eu tive, a Bit, no final dos anos 1990. Foi uma startup de tecnologia que criou o Peça Comida, um dos primeiros serviços de pedir comida pela internet, tipo o iFood. A gente captou R$ 1 milhão de investimento na época, eu tinha 17 anos, com meu sócio. E aí o Léo Falcão, grande roteirista pernambucano, está dirigindo um documentário sobre essa história. Já está boa parte gravada e é mais que a história da nossa empresa, é a história da internet sob a ótica do Recife. Tem participação de Cláudio Marinho, Silvio Meira e outros personagens.

Crédito: Divulgação

E sua carreira como comediante? Podemos esperar novidades?
Eu dei uma pequena retomada este ano, gravei um programa para o Comedy Central sobre os bastidores da criação da piada e eles me desafiaram a criar textos novos. Há dois anos eu não criava piadas novas, não era minha prioridade, então criei um material sobre ser pai, sobre filhos. E está rodando no Comedy Central o programa Entre Risos. No final do ano, nesse evento de 20 anos, eu pretendo fazer uma apresentação meio stand-up meio palestra. As minhas palestras costumam ser 80% conteúdo e 20% humor e dessa vez eu pretendo inverter isso, ou deixar mais equilibrado. Não será um show novo, mas um ‘the best of’ de textos meus e também do material deste ano. Eu estou em um momento na empresa de criação de lideranças e organização dos processos, para que ela dependa menos de mim. Até pouco tempo atrás, o maior gargalo da empresa era eu. Estou cada vez mais trazendo pessoas estratégicas, como o nosso CEO Victor Mahon e meu sócio Bruno Romano. E próximo ano espero que eu possa retomar a comédia criando um espetáculo totalmente novo.

Em 2014, você participou de um projeto da NASA. Como foi essa experiência e o que você carrega dela até hoje?
O que eu carrego até hoje é, primeiro, o choque de realidade de você ir lá e se deparar com tantas novidades tecnológicas. Ter visto nanotecnologia, biotecnologia, robótica, inteligência artificial, fez que eu me interessasse por esses assuntos e continuasse pesquisando. Ano passado eu fui na Singularity de novo, para um evento que eles fazem de atualização, e já mudou tudo.
Outro impacto foi a rede de relacionamentos. Você se conecta com pessoas muito interessantes do mundo todo e também do Brasil – da sua turma e também de outras – e você leva isso para sua vida.
E a terceira coisa que eu trouxe de lá, talvez a mais importante, é que quando eu fui pra lá eu trabalhava meio solitário. E eu não queria ter um time porque achava muito complicado. Lá eu me envolvi num time com pessoas muito fodas e isso fez com que eu mudasse a minha percepção sobre equipes. Então, na verdade, ter uma equipe é ruim quando a equipe é uma bosta, mas quando a equipe é foda, é foda ter uma equipe foda, é bom. E foi isso que me fez, ao voltar da Singularity, querer montar um time e ir atrás de pessoas para se envolverem na empresa. E hoje eu tenho uma equipe que eu considero foda e que vai ficando cada vez melhor e maior. Essa foi uma grande “troca de chave”, que não tem nada a ver com futuro e tecnologias, tem a ver com pessoas. Mas eu tive que passar por aquela experiência lá para entender.

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