Carvalheira produz 100 mil litros de cachaça ao ano, segundo Eduardo Carvalheira

Eduardo Carvalheira, diretor-geral da Cachaçaria Carvalheira, conta toda a história em detalhes, que começou há anos em Portugal – Crédito: Roberto Ramos/DP

Muita gente que vê o nome Carvalheira associa rapidamente às festas do selo. Mas, por trás disso, existe um grande universo, a Cachaçaria Carvalheira que, por sua vez, tem uma história que começou há anos em Portugal. O bisavô de Eduardo Carvalheira, diretor-geral da Cachaçaria, tinha, em terras lusitanas, a Quinta das Carvalheiras, onde produzia vinho. É daí que vem o nome da família. Após vir para o Recife, foi pai de nove filhos e se estabeleceu.

Há cerca de 30 anos, Eduardo e seu pai, Octávio, resolveram investir em uma tecnologia para envelhecer cachaça em barris de carvalho, como é feito com o rum. Com a ajuda de técnicos de Cuba e com o conhecimento de Octávio sobre a cachaça, eles começaram a oferecer um produto diferenciado no mercado pernambucano.

Anos depois, o talento de pai para filho tomou outro rumo. Após consolidada como uma das melhores cachaças pernambucanas, surgiu o selo de eventos Padrão Carvalheira, que já virou marca registrada no calendário de festas do Recife. Muitas, inclusive, são realizadas dentro da cachaçaria, reunindo milhares de pessoas. Atualmente, a cachaçaria conta com oito rótulos em seu portfólio, entre bebidas envelhecidas, puras e ready to drink – aquelas misturadas com outros ingredientes e prontas para serem consumidas.

Conversamos com Eduardo Carvalheira sobre a cachaçaria, os produtos, o consumo de cachaça no Brasil, projetos para o futuro e, claro, sobre como se tornou uma produtora de eventos. Confira:

Qual a história da Carvalheira e sua relação com Portugal?
O meu bisavô era português e lá ele tinha uma quinta que se chamava Quinta das Carvalheiras. Ele utilizava os carvalhos para fazer barris para envelhecer o vinho. Depois, ele veio para cá e se casou com uma descendente de portugueses e tiveram nove filhos, entre eles, meu avô. A cachaçaria começou com meu pai e eu, há 30 anos. Meu pai era um técnico, ele trabalhava em projetos de usinas e destilarias de cachaças. Nós começamos a fazer algumas experiências e decidimos montar a cachaçaria. Foi uma grande coincidência: o nome da família é Carvalheira por conta da Quinta, em Portugal. E aqui trabalhamos com o carvalho para o envelhecimento. 

Como surgiu a cachaçaria Carvalheira?
Meu pai já trabalhava com isso e, na época, tinha alguns cubanos aqui em Recife. Eles tinham muita experiência com o envelhecimento do rum, em Cuba. E nós decidimos fazer com a cachaça. Eu tinha um relacionamento com a Bacardi e lá tinha uma série de barris de carvalho. Nós adquirimos eles e começamos as experiências. A cachaçaria Carvalheira surgiu com a tecnologia minha e de meu pai, a experiência dos cubanos e os barris. Foi uma junção.

O bisavô de Eduardo Carvalheira tinha, em terras lusitanas, a Quinta das Carvalheiras, onde produzia vinho. É daí que vem o nome da família – Crédito: Julio Jacobina /DP

Como é seu envolvimento na produção? 
Acompanho tudo de perto. Nós temos três fornecedores de cachaça na região. Eles fabricam, mandam a amostra, nós aprovamos e fazemos o beneficiamento. Colocamos nos barris ou misturamos com outros ingredientes, como a com limão e mel.

Quantos tipos de cachaças a Carvalheira produz?
Nós temos, hoje, oito rótulos. A Reserva Especial Porto Recife, Reserva Especial Canela, Reserva Especial Raízes, Tradicional, Carva Mel e Limão, Alambique, Brasil e a Fika Jurubeba. A principal é a envelhecida, extra-premium.

Quantos litros vocês produzem por ano?
Produzimos em torno de 100 mil litros, entre todos os produtos. E é um número pequeno para bebidas. Mas são produtos que se qualificam para o mercado premium. Não se compara com alguns concorrentes. Temos garrafa importada, com rolhas. Mas essa produção está dentro de nossa capacidade e a cada ano vamos aumentando, não está limitada. O importante é que temos um cliente muito forte, o principal, que é o turista. Todos os dias nós temos de 120 a 150 turistas visitando a cachaçaria. Eles compram aqui, em Porto de Galinhas, em Carneiros, no aeroporto… 

Crédito: Carvalheira/Divulgação

Quais são as diferenças entre os processos de produção da cachaça?
Na parte da destilação, tem duas formas que podem ser feitas: em coluna e em alambique de cobre. Todo produto destilado pode ser dessas duas formas. A cachaça de alambique é mais complexa, mais artesanal. Fazendo uma analogia com um sanduíche, poderíamos falar que a cachaça de coluna é o McDonald’s, que é mais padronizado. Já a de alambique, é aquele feito em casa, mais complexo.

Crédito: Ricardo Fernandes/DP

Vocês exportam o produto?
A gente já exportou um pouco, mas existe um trabalho grande em relação à isso. Meu filho, Kiko, está na Europa há dois meses fazendo esse trabalho para promover a marca. Exportar a cachaça in natura é mais fácil do que a nossa, que tem um alto valor agregado. É mais complicado. Mas estamos dando muita importância a isso.

Qual o principal objetivo do seu filho, Kiko, na Europa?
O principal objetivo é ir atrás de mercado. Produtos mais sofisticados, de uma forma geral, tendem a ser vendidos em países com maior poder aquisitivo. E como nossos produtos têm uma exigência maior, vimos que na Europa tem muito mercado para isso. Ele já está bem adiantado em algumas negociações e também está estudando a possibilidade de outros produtos. O céu é o limite. O céu e o bom senso.

Como você avalia o comportamento dos pernambucanos em relação ao consumo de cachaça?
Falando da linha de produtos premium, existem aqueles consumidores que são os puristas. São aqueles que gostam de cachaça pura, sem gelo, tomando uma dose. E este mercado está em queda, está diminuindo por conta das barreiras impostas ao consumo de álcool. Os jovens, por exemplo, raramente estão tomando shots assim. Aquele “bebedor” de produtos premium em shot, hoje, é uma rara exceção. Você não vê ninguém em um restaurante tomando um shot de cachaça. Vemos, às vezes, em um bar ou algo assim. Essa linha de consumo está em extinção. Em Minas Gerais ainda temos muito puristas.

Crédito: Pic.Me/Divulgação

Hoje, o que se bebe mais são as bebidas misturadas com cachaças,  ready to drink. São aquelas que você coloca gelo e elas estão prontas para beber. Produtos como a Carva, com mel e limão. Você pode beber a Carva tanto de goles, em uma taça, quanto misturando com gelo. Outra forma grande de consumo das cachaças é a que se faz caipirinhas e caipifrutas. Tanto as envelhecidas, quanto as puras. Uma dose de cachaça com caju, cajá, morango kiwi e, principalmente, o limão, é o símbolo do Brasil. Mas, se você passar para uma cachaça mais popular, esse perfil muda. Volta para os shots, as “lapadas de cana”, que são muito fortes ainda no Nordeste.

Qual é o tipo mais consumido?
Para os puristas, mais a cachaça de alambique. Para os que tomam, o ready to drink,  produtos mais fabricados, com mel e limão. Hoje, quase todos os fabricantes têm uma versão mel e limão. É um produto que está tomando corpo no mercado. É mais fraco, as mulheres aderiram bastante.

Crédito: Carvalheira/Divulgação

Quais os projetos para a cachaçaria Carvalheira? Existe algum lançamento?
Por enquanto, não. Estamos com projetos sempre de mexer nas embalagens. Nosso produto é muito dado como presente. Para o Natal, estamos com lançamentos de kits. São caixas com produtos interessantes e tudo mais.

Para você, quais as melhores cachaças que já provou?
Falando de produtos envelhecidos, a Carvalheira Grão Fino, não está  em nosso portfólio, é um produto de qualidade muito grande. São 10 anos de envelhecimento. É muito boa. Já provei também alguns produtos mineiros de alta qualidade. Sou suspeito para falar, mas a nossa cachaça de Alambique também é um produto muito bom. Teve resultado ótimo em testes cegos.

Como a cachaçaria virou um selo de festas?
A gente começou dentro da própria Carvalheira, fomos montando um ambiente que tinham cachaças nos barris e ficou bem arrumado. O barril é bem plástico, mistura o rústico com o sofisticado. Então, começamos a fazer pequenos eventos lá dentro, entendendo que precisávamos dar um bom acabamento ao evento, ao serviço, dar conforto ao cliente. A gente acredita que tem que dar uma qualidade igual a que a gente teria no exterior. A atenção, o cuidado, o respeito com o público. E surgiu o termo Padrão Carvalheira, que virou um sinônimo de coisas bem feitas, de fartura. Foi um termo usado pelo mercado sobre a gente, não fomos nós que criamos. É uma festa que não tem filas, a quantidade de pessoas por metro quadrado é confortável. Os serviços oferecidos sempre tem uma qualidade acima da média. E juntou com a cachaça, que tem muita adesão nas festas.

Quais as exigências de segurança para que a cachaçaria pudesse receber eventos?
Não só dentro da Carvalheira, mas em qualquer lugar que se faz eventos, é muito importante a segurança. Nós trabalhamos com inteligência, com empresas profissionais, sem improviso. A tolerância também é baixa com gente que quer promover a desordem. Na Carvalheira, se você perturbar o seu próximo, você será chamado atenção, pode até ser convidado a se retirar. E as pessoas foram percebendo isso. O local não é apertado, os banheiros e as catracas são bem sinalizados, a limpeza é bem feita, ativa. E por isso, tanto os clientes, quanto os patrocinadores, tendem a dar preferência para nossa marca. 

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