Padre Airton Freire realiza ação de Natal com a Fundação Terra


O verdadeiro espírito do Natal está diretamente ligado ao amor. Essa história de ajudar ao próximo, ser solidário e praticar o perdão ganha mais sentido do que em qualquer outro dia do ano. Mas não é bem assim para o padre Airton Freire, idealizador da Fundação Terra: ele pratica tudo isso a todo momento, servindo a Deus em cada ato. Aos 62 anos, o padre mora em uma casa de taipa, coberta de palha, em Arcoverde, no Sertão de Pernambuco.

Créditos: Eternize Produtora/Cortesia/Fundação Terra

Para ele, além de tudo, o mais importante é lembrar do verdadeiro significado do Natal, que é o nascimento de Jesus: “o aniversariante é Ele”. Padre Airton Freire segue os passos de quem considera o criador de todas as coisas, vivendo na simplicidade e agindo com ternura. Aos 28 anos, após dois anos sendo consagrado padre, ele se deparou com o que mudaria a sua vida – a Rua do Lixo.

“A Fundação Terra surgiu porque eu estava celebrando na Rua do Lixo e fui tocado por uma criança gritando por fome. Para ela, a Ostia era uma bolacha”, conta sobre o início da Fundação. “Fiquei tão tocado que fui morar com eles”. A Fundação Terra é basicamente uma instituição que atua nas áreas social, de saúde e educação, nas cidades de Arcoverde (principalmente), outros municípios do Sertão pernambucano, no Recife e em duas cidades do Ceará. 

Crédito: Eudes Santana/Cortesia/Fundação Terra

A Rua do Lixo é uma comunidade localizada em Arcoverde, onde moram pouco mais de 60 mil pessoas, em extrema situação de pobreza. Muitas passaram boa parte da vida trabalhando em coleta de lixo, disputando com animais o que beber e comer. Após a chegada do padre Airton, a população do local recebe serviços de doações de comidas – são 900 pratos distribuídos diariamente -, escolas, creches, cursos profissionalizantes, serviço social e aproximação com Deus (pelas ações religiosas ministradas pelos voluntários e pelo próprio padre).

Ainda, na época do Natal, o município ganha ainda mais luz com os projetos direcionados a ele. “Agora vai ter o Natal Sem Fome da Rua do Lixo, na última sexta-feira antes do Natal. Vamos distribuir comida para 2,5 mil pessoas. E para a mesma quantidade de gente, pães e peixes na quarta-feira santa”, explica o padre. Em tempo, ele ainda desabafa sobre o que quer repassar às pessoas na data comemorativa. “A frase que eu diria é esta: tua vida ganha sentido, quando ela passa a ter sentido para a vida de alguém. Questionadora continua sendo a presença de cada criança que nasce pobre nas periferias sociais desse mundo”, se emociona.

Crédito: Eternize Produtora/Cortesia/Fundação Terra

Em entrevista exclusiva ao Blog João Alberto, o padre Airton Freire contou tudo sobre a sua trajetória, explicou como funcionam todos os segmentos da Fundação Terra e ainda abriu o coração sobre fé, esperança e caridade. Leia na íntegra:

Como começou a sua trajetória na religião? Como você decidiu se tornar padre?
Eu era criança, jovem ainda, deveria ter uns 9 anos de idade. Houve algumas missões dos Capuchinhos em Sertânia, onde eu morava. Depois disso, eu senti em meu coração que deveria seguir aquilo. Mas eu era uma criança, não estava claro pra mim. Eu era um menino muito briguento, arengava muito, só aos 16 anos decidi, no ensino médio, que terminei aos 19. Aí entrei no seminário, estudei filosofia e teologia lá em Olinda. Depois, nessa época, também fiz o curso de psicologia, com formação psicanalítica. Depois de 10 anos de estudo, fui ordenado padre, em 1982. Em seguida, fui morar em Arcoverde, aos 28 anos de idade. Em 1984 conheci a Rua do Lixo. Fiquei durante 16 anos morando lá. Adoeci e não pude mais ficar lá no Sítio Malhada, no município de Buíque. Em 2000, criamos a casa de retiro e o Instituto de Servos de Deus.

Quais foram as maiores dificuldades e aprendizados na sua caminhada de fé?
O período que eu fui pra Rua do Lixo (em Arcoverde) foi um período de seca. Muito difícil porque eu trabalhava com exclusão social. O papa Francisco hoje chamaria de periferias existenciais. São pessoas desprovidas de um sentido pra viver num geral. Pessoas que catavam lixo, sobreviviam disputando comida com os animais. Sem recurso nenhum, mas Deus é Deus.

Crédito: Eudes Santana/Cortesia/Fundação Terra

Como é a sua rotina quando está em Arcoverde?
Eu moro numa casa de taipa, coberta de palha. Pela parte da manhã escrevo, faço minhas orações na minha casinha, meditação. Ao meio-dia, vou para a comunidade e temos o almoço com os trabalhadores. Faço atendimento ao povo de Deus às quintas-feiras, depois vou visitar as crianças e a Fundação Terra. Uma vez por mês, vou ao Recife para reunião do conselho da Fundação, na última segunda-feira do mês.

Como surgiu a Fundação Terra? O que é a Fundação?
A Fundação Terra surgiu porque eu estava celebrando na Rua do Lixo e fui tocado por uma criança gritando por fome. Para ela, a Ostia era uma bolacha. Fiquei tão tocado que fui morar com eles. Depois, fiz os primeiros projetos com a Legião Brasileira de Assistência, a LBA. Reconstrução de casebres, salão comunitário, criatório de cabras, creches. Teve também um surto de cólera na região, foi muito difícil esse período. E aí a comunidade foi crescendo, o pessoal foi conhecendo, foi nos ajudando. Temos uma Fundação Terra que distribui diariamente 900 pratos de comida. As pessoas ajudam com boleto bancário. Temos nos mantido. 

Crédito: Eternize Produtora/Cortesia/Fundação Terra

Como é o funcionamento da Fundação Terra no Recife?
Temos um trabalho com pessoas de rua, feita pelos servos de Deus, no Largo da Santa Cruz. Temos também uma casa no Recife que recebe os estudantes de Arcoverde. 

Quais são seus projetos da Fundação no Ceará?
Lá tem uma unidade, uma creche,com  centro poli esportivo, música, dança, capoeira, jiu jtsu. Ajudamos também mães carentes da terra e algumas centenas de crianças. Está chegando a Fundação Terra na região do Cariri. 

O que é o Mens Sana?
É uma unidade de saúde da Fundação que existe em Arcoverde, e atende a 35 municípios. São 12 mil atendimentos por mês. É um centro de reabilitação que atende a população do Sertão de Pernambuco para fazer o tratamento de crianças com microcefalia e outros problemas provocados pela síndrome do zika vírus.

Você tem uma relação poderosa com o Sertão pernambucano, especificamente Arcoverde. Quais ações você já realizou no local?
Trabalhamos em três áreas: social, saúde e educação. Social é essa de recuperação de casebre, retirada de documentos, cuidado de mães gestantes, trabalho preventivo, crianças na área de risco. Saúde é essa do Mens Sana e a da educação é a nossa escolinha Pequena Infância, que conta com 260 crianças. Tem a escola Pax Christi, que trabalha com 560 crianças. E, também, na parte de educação profissionalizante, temos marcenaria, eletricidade, carpintaria, computação…

Crédito: Eternize Produtora/Cortesia/Fundação Terra

Como vocês arrecadam as doações? Como faz para se tornar voluntário das ações?
As pessoas conhecem a fundação através dos retiros, que é como a gente apresenta a Fundação; também nas palestras a gente pede que divulguem; e pelo reconhecimento da mídia. Para se tornar voluntário, basta comparecer às unidades físicas (com doações ou vontade de ajudar): no Recife, na rua João de Deus, número 215, na Torre, ou no Largo da Santa Cruz. Em Arcoverde, na Rua do Lixo. E pessoas de outros países também participam,  elas passam de um a seis meses. São jovens alemães, ingleses, franceses, italianos, poloneses. Ficam hospedados nas casas de retiros, reservamos uma ala pra eles ficarem, e de manhã saem para os trabalhos deles.

Em que consistem as palestras que você ministra? Você já foi para quais lugares com elas?
Este ano, eu falei das quatro virtudes cardiais. Fortaleza, prudência, justiça e temperância. Pude falar para algumas centenas de pessoas, e elas escutam e ouvem a divulgação da Fundação, pra depois conhecer, fazem retiro nos finais de semana. Falo também das três virtudes teologais: fé, esperança e amor.  Já fui para o Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Brasília, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Minas Gerais, São Paulo, Romênia, Inglaterra, Estados Unidos e Alemanha. Falo português e um pouco de inglês, francês, alemão, espanhol e hebraico.

Em que igrejas e com qual frequência você celebra missas no Recife?
Antes, eu celebrava na igreja de Casa Forte. Mas quando a gente começou o trabalho com as pessoas de rua, celebro no Largo da Santa. Uma vez por mês, última segunda-feira de cada mês, 17h. 

Crédito: Eternize Produtora/Cortesia/Fundação Terra

Vocês fazem algum trabalho diferente no Natal?
Agora tivemos o Natal Sem Fome da Rua do Lixo, na última sexta-feira antes do Natal. Distribuímos comida para 2.500 pessoas. E para a mesma quantidade de gente, pães e peixes na quarta-feira santa. E temos a ceia de Natal que existe desde o primeiro ano da Fundação, que eu comia com eles na rua, juntava os quebradores de pedra, catadores de lixo, abrigo de idosos, e distribuímos quentinhas, sopa, cuscuz. Agora, é na quadra do Hotel Cruzeiro, arrecadamos os alimentos e o pessoal de lá cozinha. Às 15h rezo a misericórdia, 17h tem a celebração da santa missa e uma visita à criança mais nova da Rua do Lixo, além de apresentações culturais. Depois começa a distribuição das comidas em turnos de 500 pessoas, onde pessoas de fora ajudam. 

Qual o ensinamento que você busca repassar no Natal?
A frase que eu diria é esta: a tua vida ganha sentido, quando ela passa a ter sentido para a vida de alguém. Questionadora continua sendo a presença de cada criança que nasce pobre nas periferias sociais desse mundo. Assim como foi questionadora a presença de Jesus, menino pobre, nascido na periferia de Belém. A presença do menino pobre. O aniversariante é ele.

Qual a importância da fé e caridade na vida das pessoas?
É pela fé que nós chegamos até aqui. É pela fé que nós podemos vencer, que nós fomos abençoados. Não estamos só. A causa é maior que nossos próprios anos de vida. E a caridade é o amor traduzido em ato. É o que faz a diferença para a vida de alguém. Presença solidária, misericordiosa presença. Isso faz sentido. E a esperança que não decepciona. Fé, esperança e o amor. A fé que a gente aposta em Deus não decepciona. As três são vistas de mãos dadas. Sobretudo o amor efetivo, o que efetivamente faz diferença para alguém.

Saiba mais:

A FUNDAÇÃO TERRA EM NÚMEROS

1.000 crianças atendidas em duas escolas e três creches, em Arcoverde (PE) e Maracanaú (CE);

70 crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade acolhidos em 4 casas com regime de semi-internato, na zona rural dos municípios de Sertânia, Buíque e Arcoverde, todos no Sertão de Pernambuco;

30 idosos abrigados em 2 casas de acolhimento;

85 mil atendimentos de reabilitação intelectual, auditiva, motora e visual, para pacientes de 35 municípios do Sertão Pernambucano;

292 crianças e jovens beneficiados nos projetos de educação complementar: aulas de música, artes marciais, samba de coco, maracatu, oficinas de percussão, artes cênicas, em Maracanaú (CE) e Arcoverde (PE);

339 jovens e adultos atendidos por ano em cursos profissionalizantes, em Maracanaú (CE) e em Arcoverde (PE);

1.500 famílias por ano atendidas em ações sociais, em Maracanaú (CE) e em Arcoverde (PE);

1 biblioteca comunitária na antiga Rua do Lixo, na cidade de Arcoverde (PE);

150 moradores de ruas atendidos diariamente, com pelo menos 1 refeição diária e oficinas de artesanato, no Centro de Apoio aos Moradores de Rua, localizado no Centro do Recife (PE).

Author: Júlia Molinari

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