Por dentro das coberturas: cinco mil discos e uma tela de cinema no triplex de Daniel Aragão

Crédito: Arquivo pessoal

Quando decidiu se mudar para uma cobertura, Daniel Aragão, 37 anos, não procurava mais conforto, segurança, espaço, entre outras vantagens que se ganha ao adquirir um imóvel no topo de um edifício. O cineasta comprou seu apartamento de três andares e 300 metros quadrados em 2007 e prezou pela memória afetiva na hora de fazer a oferta. Lá, estão guardadas muitas lembranças da sua juventude. Depois da aula, costumava ir até o apartamento, que pertencia à família de um amigo, para “relaxar”. Os meninos encontravam ali, uma fuga da “opressão” que sofriam todas as manhãs na tradicional escola católica em que estudavam na Zona Norte do Recife.

“O local já fazia parte dos meus sonhos de adolescente, pois era lá que assistíamos filmes em VHS e escutávamos música depois do colégio”, relata Daniel. “Podíamos convidar amigos e namoradas para tomar banho de piscina e fazer um chill out num ambiente privado”, completa.

E parece que a música e os filmes que Daniel gostava de ouvir e ver quando adolescente não ficaram só na memória do artista. A decoração do apartamento traz vários elementos musicais e cinematográficos na sua composição. Segundo o diretor de Boa Sorte, Meu Amor e Prometo um dia deixar esta cidade, sua casa foi se tornando, “aos poucos e naturalmente como uma loja de antiguidades”, “Ou um pequeno museu de câmeras, lentes, discos de vinil, CDs, K7, equipamentos de som vintages, roupas usadas nos meus filmes”, descreve.

Crédito: Arquivo pessoal

“Assim como o espaço em si, que já tem sua particularidade, cada objeto tem uma história, pois faz relação direta com minha vida e minha profissão”, explica o cineasta, revelando ainda que vários filmes foram feitos no seu apartamento, uma vez que ali também é sede de sua produtora, a Cicatrix Filmes. “Era um ambiente de encontros e festas da classe cinematográfica pernambucana, um lugar comunitário”, conta Daniel.

Uma espaçosa sala de estar recebe quem chega na casa de Daniel. O ambiente, em conceito aberto, se conecta com a cozinha, mas não há mesa nem cadeiras para as refeições. Ao fundo, um sofá branco convida para sentar e escutar uma boa música, olhando para um Rocky Balboa colado na parede ao lado da porta de entrada.

Luzes coloridas, pisca-piscas, pôsteres de filmes, câmera, tripé e os equipamentos de som em estilo vintage ainda fazem parte da decoração do principal cômodo no primeiro andar. “Tipo um cabaré do anos 1970. A ideia é manter o clima kitsch e vintage de um cabaré antigo”, explica Daniel. Além de tudo isso, uma escada branca em espiral te leva a conhecer uma imensa coleção de discos de vinil no segundo piso.

Crédito: Arquivo pessoal

Crédito: Arquivo pessoal

São cerca de 5 mil LPs. A maioria de música norte-americana dos anos 1960, 1970 e 1980. Mas também há aqueles brasileiros que se tornaram valiosos, como Tim Maia, Marcos Valle e João Gilberto. Subindo para a cobertura, o ápice não é a piscina, como na maioria dos imóveis desse tipo. O ponto verdadeiramente alto da cobertura de Daniel é a tela de cinema com sete metros de largura. Lá foram realizadas várias festas. Entre as mais marcantes, o cineasta lembra do encerramento do Cine PE em 2007, que coincidiu com o dia do seu aniversário, e o encerramento do Janela Internacional do Recife. Ambas, segundo ele, reuniram cerca de 300 pessoas no local.

Daniel, que atualmente está vivendo com a namorada no subúrbio de Helsinque, capital da Finlândia, deixou seu imóvel sob os cuidados de amigos e da família. Ele diz que não sente falta do Recife. “Eu vi a cidade se verticalizar dessa cobertura. O horizonte ser preenchido com prédios”, lamenta o diretor. “Vivo oprimido pelas janelas vizinhas. Dia desses deram até um tiro de chumbinho que quebrou uma janela”, desabafa.

Crédito: Arquivo pessoal

E apesar de ter sentido sua cobertura ser “engolida” pelos prédios ao redor, a ponto de precisar instalar uma coberta para se proteger e ter privacidade, Daniel sente saudades do seu espaço no Recife. “Ele é muito importante para minha profissão, principalmente quando estou na fase de montagem dos meus filmes”, conta o cineasta, dando spoiler: um novo pôster pode decorar a sua sala. A gulag americana é o novo projeto que ele pretende lançar no Brasil ainda em 2018.

Com cerca de 9 mil quilômetros de distância da capital pernambucana, Daniel Aragão fala carinhosamente do seu cantinho, colecionador de memórias. “Cada ambiente da casa me faz recordar algo que ali foi vivido. Eu sinto falta de tudo do espaço. É como se fosse minha batcaverna”, disse o cineasta. Na sua conta no Instagram, ele divulgou um pequeno vídeo, estilo curta-metragem em que mostra o seu apartamento. Confira: 

 

A girl is everything 1927-1999

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Author: Bettina Novaes

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