Giro Blog

De pai para filho; de corpo e alma

Iuri Maia Leite/Reprodução

Iuri Maia Leite explica sua paixão pelo Santa Cruz neste artigo que publicou na matéria especial que o Diário de Pernambuco publico quando da morte do seu pai, Ronildo Maia Leite, que era colunista semanal do nosso jornal.

“Eu sou Santa Cruz/ De corpo e alma/ E serei sempre de coração…” O compositor Sebastião Rosendo, autor deste hino do Santa, definiu bem essa relação de paixão entre o corpo e a alma, assim como o Santa Cruz e ainda entre o pai e filho. Como meu pai Ronildo Maia Leite falava, vou contar essa história para vocês, camaradas.

Nasci cheirando a Revolução de 64; meu pai relatando no jornal Última Hora, os movimentos revolucionários e lutando para batizar meu nome. Para homenagear a esquerda que lutava contra as forças do exército, meu nome era para ser Yuri Gagarin, com Y! Mas o padre não deixou, já que é um nome russo do regime comunista. Assim, ficou só Iuri – com I e sem Gagarin, pois era época de repressão.

Na revolução, meu pai foi preso e, por alguns anos, ficou desempregado; ninguém queria aceitar um homem de esquerda no mercado de trabalho. Naquela época comunista, não era anarquista. Era  que não aceitava a ditadura e defendia a democracia. Dessa maneira, em 1966, seu Queiroz chamou meu pai para trabalhar na agência de publicidade Abaeté, com a função de redator. Ficou pouco tempo. Por um simples motivo que ele fazia questão de repetir quantas vezes fosse necessário: “no seu sangue, corre tinta de jornal”.

Não à toa, recebeu um convite para voltar para imprensa. Mas com uma condição: tinha que ser na editoria de esportes para não se envolver em outros cadernos. Assim, foi para já extinto Diário da Noite (diga-se de passagem, foi um jornal vespertino do grupo Jornal do Commercio do Recife, que circulou até o início dos anos 80, fazendo um jornalismo popular) comandar o caderno. Mesmo ganhando metade do salário da Abaeté, ele aceitou. Afinal, era do que ele realmente gostava: do cheiro dos jornais, de escrever.

Aí, começou a minha relação do Santa Cruz com meu pai, que me levava a tiracolo para todos os jogos. Lembro que encontrava, nas cabines das rádios, amigos do meu pai como Chico José e Luiz Cavalcanti. A imprensa esportiva é responsável pelo orgulho que temos de torcer por times locais.  É o único Estado do Nordeste que as três principais torcidas são de Pernambuco. Pensamos primeiro aqui, depois é que vêm os times do Sudeste.

Lembramos sempre o “ta lá”, de Ivan Lima. Recordamos, claro, de César Brasil, com a sua expressão superconsolidada: “O placar tá na velha base do zero a zero”. E ainda de Barbosa Filho, que falava sempre “A República independente do Arruda”, como também de Adilson Couto, que reinou com “Meu coração tá fazendo tuntuntum de alegria”. Não se pode esquecer Vicente Lemos, que criou o gol longo que Jota Soares e batizou de “a sirenada de Vicente”.

Inesquecível ainda é Roberto Queiroz, que inventou, na hora de gritar gol , “e que gol… “. Existem tantos outros nomes… Entre eles, Ralph de Carvalho e o garoto prodígio de Vitória de Santo Antão, Rembrandt Júnior. Brilham ainda Natan Oliveira, Roberto Nascimento, Léo Medrado, Maciel Júnior, Aderval Barros, Rodrigo Raposo, Aroldo Costa… Enfim, são muito os nomes da TV e do rádio pernambucanos que têm esse dom de formar talentos.

O orgulho de todo pai é que seu filho vista a mesma camisa – e vestir desde garoto. Fui na inauguração do Arruda, em 1972, no jogo contra o Flamengo do Rio e, depois, na ampliação em 1982. Posso falar que o Arruda é a minha casa; sou das ruas das moças, sou da rua do canal, sou da Avenida Beberide; sou da padaria do índio, sou do Mercado da Encruzilhada. Sou da Avenida Norte. Todo domingo esse é o meu caminho.

Meu inicio com o Santa foi na arrancada do penta na década de 70. Tantos nomes vêm à minha mente… Entre eles, Luciano, a Maravilha do Arruda, e Givanildo, o Topo-Giggio, que ajudaram a quebrar o jejum do Corinthians. Além deles, também despontam Ricardo Rocha e Rivaldo, campeões brasileiros, e Ramon, artilheiro do campeonato brasileiro de 1973, formando dupla de ataque com Fernando Santana. E ainda Nunes, o cabelo de fogo, campeão mundial pelo Flamengo.

E me lembro bem de Fumachu, Betinho, Erb, Detinho, Cabral, Pedrinho, San Birigui, Pio, Zé do Carmo. Peço perdão porque são tantos grandes nomes do Santinha que, com certeza, me esqueci de mencionar vários. Todos contribuíram com o futebol brasileiro. Não ligo muito quando falam que o Santa está nas séries D, C ou B – são apenas letras e mais letras; não têm vida, pois não falam nem andam. A camisa do Santa fala e anda sozinha, tem alma, flutua em campo. As camisas jogam sozinhas.

Quando um time chega nesse estágio da amisa ser maior do que o jogador, é possível se orgulhar e dizer que se veste um manto sagrado.

Pai, por duas vezes e em público, na placa do Bar Pra Vocês, no Pina, onde recebemos juntos no dia 28 de janeiro de 1999, e ainda na homenagem da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB), eu disse que TE AMO e agora, mais uma vez, agradeço a você por ter me tornando Tricolor do Arruda.

O corpo do meu pai não está mais aqui, mas com certeza a alma dele permanecerá eternamente no Arruda. Por isso, eu sou Santa Cruz de corpo e alma…”

Author: admin

Compartilhe este post