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Noite de gala no Cinema São Luiz

Cinema São Luiz: 60 anos / Crédito: Nando Chiappetta/DP/D.A Press

O dia 6 de setembro de 1952 marcou a inauguração do Cinema São Luiz, localizado na Rua da Aurora, às margens do rio Capibaribe e que, por décadas, se configurou como um dos principais símbolos do estado. Exatos 60 anos depois, o local abriu as portas para reapresentar sua história à população – tanto para os que estiveram presentes desde o início quanto para os mais novos. Setembro contará com uma extensa programação comemorativa, com a reexibição de filmes marcantes, pequenos festivais e seminários, entre outras atividades. A noite desta sexta abriu oficialmente a programação com uma grande festa. Nela estiveram presentes nomes importantes da cena audiovisual e representantes do governo do estado – a começar pelo governador Eduardo Campos.

Crédito: Nando Chiappetta/DP/D.A Press

O evento reuniu cineastas, artistas, políticos e apaixonados pela sétima arte em geral. O ambiente era marcado pela nostalgia dos que viveram a infância e a adolescência marcadas pelo Cinema São Luiz. As tradicionais barraquinhas de pipoca preenchiam o hall da entrada e a sala, dividida por cortinas, permanecia tão bela quanto há 60 anos. No entanto, algumas diferenças: o sistema de refrigeração e projeção foram modernizados (e a reforma deve continuar até novembro). O telão trazia imagens da inauguração enquanto a Banda Sinfônica do Recife emocionava os convidados, tocando trilhas sonoras clássicas de filmes e séries que marcaram história. Star Wars, Indiana Jones, Missão Impossível e tantas outras obras eram imediatamente reconhecidas pelos instrumentos da orquestra.

Crédito: Nando Chiappetta/DP/D.A Press

Para a abertura, a reexibição de  O Canto do Mar, de Alberto Cavalcanti. O primeiro filme pernambucano a entrar em cartaz no São Luiz foi alvo de polêmicas e críticas na década de 1950. Deu tanto o que falar que o curador e programador Geraldo Pinho defendeu a escolha como “indispensável”. O protagonista do longa, Rildo Saraiva, que na época tinha 14 anos de idade, esteve emocionado na plateia revendo seu primeiro trabalho como ator. Ele, que atualmente é médico e professor da UFPE, contou alguns detalhes das filmagens: “Lembro que foram três meninos escolhidos entre cem. Eu fiquei entre eles mas na hora da gravação esqueci o texto e acabei improvisando. Alberto (Cavalcanti) gostou de mim e me escolheu. Era tudo uma grande diversão. Vou confessar que eu queria mesmo era conhecer Aurora (uma das atrizes do longa). Era a oportunidade que eu tinha de beijá-la”, contou.

Rildo Saraiva, que atuou em "O Canto do Mar" aos 14 anos / Crédito: Nando Chiappetta/DP/D.A Press

O início do São Luiz continuava vivo na memória de muitos convidados. Arlindo Gusmão, que trabalhou com distribuição cinematográfica por 60 anos, carregava com orgulho o ingresso do primeiro filme exibido pelo cinema, O Falcão dos Mares. O artista Abelardo da Hora recordou os tempos de adolescente: “Era para cá que eu vinha namorar. Era um clássico. Eu era muito namorador… e continuo sendo”, brincou. O mestre dos documentários, Fernando Spencer, que assinava a coluna Imagem e Som do Diario de Pernambuco até 1998, garantiu: “todo mundo gostava do São Luiz!”  Também estiveram presentes a presidente da Cerpe, Leda Alves, a cineasta Luci Alcântara, o cantor Claudionor Germano, Fátima Quintas, da Academia Pernambucana de Letras e Joel Datz – um dos “irmãos eventos”, que fez fama na cidade nas décadas passadas pelas presenças constantes em eventos sociais, ao lado de Jacó Datz, seu gêmeo já falecido.

Arlindo Gusmão e o convite da inauguração do Cinema São Luiz, de 1952 / Crédito: Nando Chiappetta/DP/D.A Press

Convite original da inauguração do Cinema São Luiz / Crédito: Nando Chiappetta/DP/D.A Press

Fernando Spencer,Eduardo Campos, Renata e José / Crédito: Nando Chiappetta/DP/D.A Press

Abelardo Filho, Tadeu Alencar e Abelardo da Hora / Crédito: Nando Chiappetta/DP/D.A Press

A coordenadora de audiovisual da Fundarpe, Carla Francischini, destacou a importância do São Luiz como agregador de públicos. “Manter este patrimônio vivo é de extrema importância. Não dá para medir o tamanho do significado que ele tem. O São Luiz agrega novos públicos, os ingressos baratos são excelentes para atrair as Classes C e D, é muito importante que essas pessoas tenham acesso às produções de qualidade que são exibidas aqui”. O diretor Kléber Mendonça, destaque do cinema local, mostrou-se feliz em ver a revitalização do que ele chamou de “remanescente entre os grandes patrimônios do estado” e fez um desabafo: “Eu não sei porque a prefeitura se esqueceu do centro do Recife. Não sei porque deixaram tantas coisas se perderem no tempo. Ainda bem que o São Luiz continua vivo. O próximo prefeito precisa entender que o centro da cidade merece estar à altura dos seus patrimônios históricos e vice-versa”.

Fernando Duarte, Rildo Saraiva e Severino Pessoa / Crédito: Nando Chiappetta/DP/D.A Press

Kleber Mendonça Filho / Crédito: Nando Chiappetta/DP/D.A Press

O governador Eduardo Campos também falou de sua relação com o Cinema São Luiz desde a infância e assumiu um compromisso. “Pretendo encaminhar um projeto de lei à Alepe (Assembleia Legislativa), para que os patrimônios do estado estejam protegidos das sucessões políticas e intervenções que os prejudiquem. O governo não pode atrapalhar a cultura. É preciso ouvir dos profissionais o que deve ser feito para preservá-lo e cumprir essas tarefas. O governo tem de investir dinheiro… porque tem dinheiro para isso”, afirmou. Assim como ele, defenderam a manutenção do espaço o secretário da Casa Civil, Tadeu Alencar, o presidente da Fundarpe, Severino Pessoa e o secretário de cultura do estado, Fernando Duarte. Ressalta-se que o governo comprou o Cine São Luiz do grupo Severiano Ribeiro em 2008. A ideia é preservá-lo como um dos últimos cinemas de rua do mundo, numa época em que, se não pode competir com as modernas salas instaladas nos shoppings centers, garanta seu espaço como uma alternativa tradicional e de qualidade.

Fernando Duarte,Rildo Saraiva,Eduardo Campos, José e Renata Campos / Crédito: Nando Chiappetta/DP/D.A Press

Luci Alcântara / Crédito: Nando Chiappetta/DP/D.A Press

Claudionor Germano, Leda Alves e Fátima Quintas / Crédito: Nando Chiappetta/DP/D.A Press

Joel Datz / Crédito: Nando Chiappetta/DP/D.A Press

Crédito: Nando Chiappetta/DP/D.A Press

A partir desta sexta, a programação especial do Cinema São Luiz será aberta ao público com os preços normais de entrada: R$ 4 e R$ 2 (meia-entrada). Não haverá vendas antecipadas de ingressos, portanto, todos os bilhetes serão vendidos no dia da exibição. O Canto do Mar, Casablanca, O Último Tango em Paris, Em Busca do Ouro são algumas das obras em cartaz. Também haverá cineclubes, festivais e seminário em homenagem ao centenário de Nelson Rodrigues.  A programação completa pode ser conferida clicando no link disponível a seguir.

Leia mais:

– Galeria de imagens da noite

– Programação Especial no São Luiz (inclui cronograma completo) 

Author: admin

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