“Nunca aceitarei”, diz Cecília Ramos sobre acidente que vitimou Carlos Percol

A jornalista Cecília Ramos, hoje secretária-adjunta de Imprensa do Governo do Estado, falou pela primeira vez sobre o acidente que vitimou o seu marido, Carlos Percol, em agosto do ano passado. O texto foi escrito para a Revista Glamour, que começa a ser vendida, nas bancas, amanhã. Abaixo, parte do depoimento emocionante escrito por ela, divulgado pela assessoria da revista.

Fotos para a revista foram feitas no Nez Bistrô, onde o casal noivou. Crédito: Paloma Amorim / Divulgação

Fotos para a revista foram feitas no Nez Bistrô, onde o casal noivou. Crédito: Paloma Amorim / Divulgação

“Não, não é o avião dele!”, repetia pros outros e pra mim mesma durante aquela manhã chuvosa de quarta-feira, 13 de agosto de 2014. Estava no comitê do PSB, em SP, quando vi a notícia do acidente pela TV: um helicóptero havia caído em Santos. Ufa! Um helicóptero… Confesso que deu um alívio. Afinal, eles [Carlos Percol, marido de Cecília e assessor de imprensa, e o candidato a presidente da República Eduardo Campos] só viajavam de jatinho. Um Cessna Citation. Eu mesma já havia viajado quatro vezes nesse bicho – e o Tchinho (como chamava meu marido) segurava minha mão sempre que a aeronave balançava. “Relaxe. Este é o meio de transporte mais seguro do mundo”, dizia. Foi quando meu olho bateu na legenda estampada na tela. Trocaram a palavra helicóptero por jatinho. Meu Deus! Não, não podia ser verdade. “Se você estiver recebendo essas mensagens, por favor me ligue!”, eu insistia, em WhatsApps desesperados que nunca foram lidos…. É que meu marido NUNCA me deixava sem resposta. Pra você ver: falei com ele pelo celular às 9h21, horário da decolagem. O jatinho caiu às 10h03. Num intervalo de 42 minutos, minha vida virou de ponta-cabeça! Rezem pra que não seja ele.  A essa altura, amigos e familiares tentavam contato comigo. Eu só pedia: “Rezem pra que não seja ele!”. Estava tão atordoada que tudo parecia sem som nem imagem. Entrei no carro pra ir a Santos. No rádio, ouvi a notícia de que o governador Geraldo Alckmin estava a caminho da cidade. Era mesmo o avião de Eduardo Campos. Foi um soco no estômago. “Nããããããão!”, gritei. Voltei, então, pro comitê. E lá, sozinha em uma das salas entulhadas de gente incrédula, muda, com lágrimas que não paravam de cair, li a única notícia que faltava pra cair a ficha: “Os sete passageiros morreram”. Fui ao chão. Desabei. Um choro mudo, doído. “Você era amiga de alguém do avião?”, me perguntaram. “Esposa.” Eu estava havia apenas dez dias trabalhando na campanha de Eduardo. Muitos ainda não me conheciam – menos ainda como esposa do Percol.

Crédito: Nando Chiappetta/DP/D.A Press

Crédito: Nando Chiappetta/DP/D.A Press

Peguei o primeiro voo pro Recife, nossa cidade natal, junto com uma amiga. Dopada, mas consciente. Já era madrugada quando desembarcamos. No aeroporto, estavam mais de 40 amigos e familiares me aguardando. Logo vi meus pais. Nos abraçamos forte. Estava muito arrasada: nem no meu pior pesadelo poderia imaginar me casar numa cerimônia tão emocionante e cheia de vida e, quatro meses depois, aguardar o caixão do meu marido chegar em um avião da Força Aérea Brasileira. Era tanta escolta que nós, familiares, nem conseguíamos chegar perto. E lá estavam os quatro caixões. Vazios, é verdade. Percol “veio” junto com Eduardo Campos, o fotógrafo e amigo Alexandre Severo e o cinegrafista Marcelo Lyra. A junção das palavras “restos mortais” nunca me soou tão estranha. Mas era só o que tínhamos! Não me aguentei e corri pra aeronave. Me debrucei sobre aquela caixa vazia de madeira e chorei sozinha! Então recebi a aliança dele – intacta! – num envelope enviado por Alckmin. Subi no carro do Corpo de Bombeiros e seguimos em comitiva até o Palácio do Campo das Princesas, onde simbolicamente todos foram velados.

Carlos Percol no dia do seu casamento com nossa amiga cecília Ramos. Crédito: Nando Chiappetta/DP/D.A Press

Carlos Percol no dia do seu casamento com nossa amiga cecília Ramos. Crédito: Nando Chiappetta/DP/D.A Press

Tenho lembranças partidas do velório. Populares, autoridades, policiais, familiares e amigos que não paravam de chegar. Eram tantas coroas de flores! “Não aceito”, pensava a todo momento. Hoje a frase mais recorrente é: “Eles não existem mais. Como é que pode?”. Mas nada mudou: continuo não aceitando. Nunca aceitarei. Você apenas coloca a dor numa caixa secreta dentro do peito e vai viver. Precisa viver! Ali, já não conseguia mais chorar. Estava perto de completar 30 horas sem dormir. A presidente Dilma Rousseff veio me abraçar. Lembro das palavras dela, com as duas mãos segurando meu rosto: “Minha filha, que brutalidade!”. Era o que eu sentia: brutalidade. No cemitério, o mesmo filme inacreditável. Queria poder fazer parar de doer e impedir a dor da dona Alzira, mãe dele. Naquele momento, só agradeci a ela por ter criado um homem tão bom, tão lindo, um marido amoroso e parceiro nos quase cinco anos que vivemos juntos. Quis ver tudo. A cobertura do velório, do enterro, a repercussão. Meus olhos ardiam: era cansaço, choro, sono, tudo junto. Até hoje, ninguém me respondeu se ele sofreu. “Foi tudo muito rápido”, é o que repetem. Tomara que seja verdade. No auge da dor, quis ficar na nossa casa, no Recife, onde se amontoavam presentes de casamento ainda fechados. Senti uma vontade louca de escrever, como fazia pra me comunicar com ele. Afinal, já convivíamos bem com a distância: ele viajava pelo Brasil afora por causa da campanha de Eduardo. Tivemos, inclusive, que encurtar a lua de mel. Londres acabou cortada do roteiro, e ficamos com Paris e Amsterdã. Eu levava numa boa porque sabia o quanto ele estava feliz. “Tu não bota fé. O chefe foi bem demais!”, repetia pra mim ao celular, após a entrevista de Eduardo no Jornal Nacional. Ele estava no Rio. Eu, em SP. Na madrugada do dia 12 pro 13, chorei muito ao telefone. De cansaço, de saudade, de tensão. Fiz uma selfie porque ele queria ver como eu estava. “Tchinha, não fique assim. Faltapouco.” E fui dormir. Cerca de oito horas depois donosso último “Boa noite. Te amo”, o avião caiu. Mas não aguentei morar lá no Recife, não. Duas semanas depois, voltei a SP. Pra ficar. Comecei na terapia e me joguei no trabalho – me reintegrei à campanha da Marina Silva. Depois, fiz o segundo turnocom Aécio Neves.

Só voltei ao Recife pras festas de fim de ano – e acabei ficando. A vida segue desde então. Talvez felicidade seja justamente poder seguir em frente a cada vez que a gente se despedaça. Reservei 2015 pra me mimar, resetar a vida. Garanto que nem a mais espiritual das criaturas pode saber o que se passa comigo ou com qualquer outra vítima disso tudo. É insuportável a dor de querer o que não existe. Então, você toma uma decisão diária de seguir em frente. Ainda não finalizei nosso vídeo de casamento. Ele mal conseguiu ver as fotos. Cheguei a enviar alguns prints das primeiras imagens, mas foi só. Eu mesma só consegui ver tudo oito meses após o acidente. Tenho falado com as outras viúvas. Bom, esse termo que não me entra… É tipo uma roupa apertada que não cabe mais nos meus 36 anos. E nunca irá caber. Escrevo muito no meu Instagram e recebo muitas mensagens, a maioria me desejando força e dizendo que sou exemplo de superação. Nada me deixa mais confortada que ouvir que ajudo alguém a ter forças, a superar algo. Ah… E muita gente já me deseja um novo amor, já discute meu futuro amoroso. Que bom! É sinal deque tenho futuro.

Author: Tatiana Sotero

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