Jailson Marcos é respiro de autenticidade na moda: “Prefiro fazer diferente”

Jailson Marcos - Crédito: Bernardo Dantas/DP/D.A Press

Jailson Marcos – Crédito: Bernardo Dantas/DP

Jailson Marcos nasceu em Santana do Norte, no Rio Grande do Norte, mas foi no Recife que ele se tornou artesão, sapateiro e designer – uma referência na moda autoral brasileira aos 54 anos. Seus sapatos chamam atenção pelas formas, cores, recortes e design único. Quem conhecer um sapato de Jailson, com certeza irá reconhecer outro em qualquer lugar do mundo. 

As criações icônicas de Jailson Marcos - Crédito: Ivan Melo/Esp.DP

As criações icônicas de Jailson Marcos – Crédito: Ivan Melo/Esp.DP

O designer criou uma identidade própria, com destaque para a parte da frente dos sapatos, que o torna totalmente icônico. A sandália rasteira em que o cabedal (a parte da frente) cobre o dedo já é um clássico. Depois de mais de 20 anos de trabalho, Jailson se divide entre o ateliê e suas duas lojas, uma no Recife e outra no Rio de Janeiro.

Jailson se define como artesão, sapateiro e designer - Crédito: Ivan Melo/Esp.DP/D.A.Press

Jailson se define como artesão, sapateiro e designer – Crédito: Ivan Melo/Esp.DP/D.A.Press

Carlinhos Brown, Arlindo Grund, Caio Braz, Elba Ramalho, Lilian Pacce e várias outras personalidades já se encantaram pelas criações do pernambucano. No Recife, ele ainda comanda um ateliê na Torre, onde recebe pedidos de clientes para criações sob medida, com ajuda de oito artesãos. “Eu criei uma identidade por causa do diferencial de formas, pela minha paixão pelo artesanato. Minhas primeiras matérias-primas eu comprava no Mercado de São José e nessas pesquisas eu vi as sandálias sertanejas, clássicas e nordestinas”, explicou o designer. Ao telefone, conversamos com o sapateiro sobre sua história – que começou com as vendas na Pracinha de Boa Viagem – coleções, projetos e novidades para o universo fashion. Confira:

Como começou sua carreira como designer de sapatos?

Eu sempre me interessei por arte, moda e arquitetura. Desde criança, meu sonho era ser arquiteto. Mas a vida acabou me levando para outro lado e, até meus 30 anos, fui funcionário público, trabalhei em empresa multinacional em Natal. Mas eu sempre fui muito insatisfeito. Então, decidi fazer faculdade e entrei em Educação Artística, mas continuei insatisfeito com o mercado. Pedi demissão e vim para o Recife. Aqui, eu não consegui continuar meu curso e voltei a trabalhar em multinacionais. Um dia, fui demitido e parti para São Paulo. Foi lá que eu conheci um argentino que me ensinou a fazer um sapato, de cara, eu disse: “É isso que eu quero” e me joguei.

Crédito: Ivan Melo/Esp.DP

Jailson Marcos cria sapatos masculinos e femininos cheios de autenticidade – Crédito: Ivan Melo/Esp.DP

Comecei a aprender a costurar, montar, cortar… Nos anos 1990, eu participei do Mercado Pop, um evento que aconteceu no Recife, reunindo arte, moda e cinema. Foi nessa época que eu comecei a experimentar coisas mais alternativas nas formas e materiais. Não tinha dinheiro para investir, mas meu desejo de criar era tão grande que eu acabei fazendo uma coleção de papel maché. Acredito e exercito muito o “fazer”. Me vejo como um criador e é o que eu gosto de fazer. Com o tempo, você tem a felicidade de ver seu trabalho reconhecido e, por isso, comecei  a pesquisar mais, descobrir as curiosidades sobre os sapatos, a história e a importância do calçado na humanidade.

Você teve dificuldades em entrar e se manter na moda pernambucana?

Eu comecei nos anos 1990 e, como todo início, tive uma dificuldade. Eu comecei a fazer sapatos e vendia para minha irmã,  depois surgiam outras pessoas. Na época, o meu maior desejo era colocar meu trabalho na Pracinha de Boa Viagem e eu fiz isso por um tempo. Muitas vezes, eu saía de casa só com o dinheiro da passagem de ida. Não foi nada fácil, mas eu sempre vendia. Sempre tinha alguém que pagava e então eu voltava para casa e comprava mais material. Isso foi uma experiência fantástica! E olhe que as coisas eram mal feitas, mal acabadas – eu trabalhei com materiais que eu nunca trabalharia hoje.

Mas eu gostava daquilo e existia uma beleza. Era isso que me motivava para que no outro fim de semana eu estivesse lá com alguma coisa nova. É preciso ter muita persistência, nunca deixar de fazer e não desistir, não parar. Esse é o grande segredo – para a vida. Se você não inovar, não buscar alternativas, você vai se deixar levar pelas dificuldades. Demorei muito tempo para abrir minha primeira loja, eu sou muito “pé no chão” porque fico esperando que as coisas aconteçam no tempo certo. Só abri minha loja há dois anos e meio na Galeria Joana D’Arc.

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Crédito: Reprodução/jailsonmarcos.com

Como você define o estilo de suas criações?

Eu acho que meu estilo é casual, o casual chique e o casual com conforto. É uma sandália que pode sair do dia para a noite sem problemas. Eu criei uma identidade por causa do diferencial de formas, pela minha paixão pelo artesanato. Minhas primeiras matérias-primas eu comprava no Mercado de São José e nessas pesquisas eu vi as sandálias sertanejas, clássicas e nordestinas. E ela tem um cabedal que cobre todo o dedo do pé – e em cima dessas referências eu alonguei a palmilha e criei meus sapatos. Eu digo que  construo sandálias. E nessa construção, meu alicerce é a palmilha. E aí vai surgindo uma sandália de dedo, um sapato com amarração… Eu só percebo que minha criação está completa quando eu consigo visualizar o produto em 360°, e em cada ângulo, com uma forma diferente. Isso me enche os olhos, o coração bate mais forte. Meu público busca isso.

Quais os modelos mais vendidos de suas coleções?

A sandália ‘oriental dedo’ – com a curvatura que une o cabedal e a palmilha – e a de pespontos oriental étnica. Mas, na verdade, apesar do nome, quando eu criei tinha a inspiração nos pespontos feitos na roupa de couro do sertanejo, de Luiz Gonzaga. Já a sandália de dedo, eu digo que é a “minha Havaianas”. Você já está calçado para qualquer momento. As pessoas se apaixonam por ela, fica muito chique. Esses são meus clássicos, nunca vou deixar de fazer.

Crédito: Ivan Melo/Esp.DP

Crédito: Ivan Melo/Esp.DP

Quais são suas inspirações?

Tudo me inspira. Eu tenho saltos que criei inspirados em bolas de pescar, por exemplo. Eu gosto de experimentar coisas novas. Se eu vejo uma forma em uma construção, em um prédio, na natureza… Isso me inspira. Já fiz sandálias inspiradas na Zircônia, outra no pé do meu guarda-roupa. Já vi, literalmente, uma bola de isopor com um buraco no meio e fiz uma sandália. Eu tenho um traço sertanejo no meu estilo de criar, até que inconscientemente. Eu sou filho do Sertão do Rio Grande do Norte, meu pai era criador de gado. Então eu trago essas referências para meu estilo. Também admiro muito Ronaldo Fraga, porque é uma pessoa que respira moda e design, além de Karl Lagerfeld – acho incrível o que ele faz com a Chanel. E a indústria da Prada também. Eu me identifico muito com os sapatos de Miucha Prada, queria ter feito todos!

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Sua primeira loja foi inaugurada na Galeria Joana D’Arc há dois anos – Crédito: Reprodução/jailsonmarcos.com

Você segue tendências ou cria suas próprias?

Não. Te juro que não, eu até parei de ver as tendências. Anteriormente, eu ia juntando as coisas que eu gostava em um banco de imagens. Mas, na hora de criar eu nunca ia lá olhar. Eu sempre fiz minha própria tendência. Às vezes, a indústria faz com que você se prenda um pouco a necessidade do momento de oferecer aquelas coisas, mas eu vou contra. Eu faço o meu olhar. Eu ainda vou para as feiras, mas eu não faço nada se eu não me identifico. Por que eu vou fazer o que todo mundo faz? Prefiro fazer diferente. Até porque meu público não quer isso. Eu vou na contramão da tendência, tentando fazer meu trabalho independente dos outros.

Você inaugurou uma nova loja no Rio de Janeiro. Como foi essa passagem para o Sudeste?

Esse desejo já existia. Quatro anos atrás, eu atendi um cliente no meu ateliê, o André Araújo, e ele me mostrou essa vontade de abrir uma loja minha no Rio. Nós conversamos, até vimos algumas lojas em Copacabana, Ipanema… Mas quando eu voltei, eu percebi que não estava preparado e também acreditava que minha primeira loja deveria ser no Recife. Então, esse desejo ficou guardado e, no ano passado, voltei a conversar com André. Eu já estava mais seguro do meu produto e agora foi o momento certo. Chegamos a um formato que não é uma franquia, e sim, uma parceria. Graças a Deus está dando certo. Abrimos em janeiro – em uma situação bem crítica no país – mas meu produto sempre tem um público que se identifica. Eu consigo agradar dois extremos: a pessoa que vê um sapato estranho, fica curioso e se apaixona; e a pessoa que é bem informada, que entende sobre design, que vê o diferencial. E isso hoje, no Rio, está me dando um feedback do mercado. Estamos muito satisfeitos, a gente vê o público que compra e volta. Formadores de opinião que estão se identificando. A coisa do boca a boca funciona muito, além das mídias sociais.

Jailson Marcos - Crédito: Bernardo Dantas/DP/D.A Press

Jailson Marcos – Crédito: Bernardo Dantas/DP/D.A Press

Quais os novos projetos, coleções, peças e o que podemos esperar para este ano?

Eu estou fechando uma nova coleção, chamada  Construção. Estou trabalhando nessa ideia de construir um abrigo para o pé, com formas, desconstruindo… e tomando como base a palmilha. Eu gosto de dizer que meu cimento é a cola, então eu vou unindo essas ideias. Está ficando bem bacana, estou trabalhando com o elástico para trazer mais conforto. O lançamento será no Rio de Janeiro, talvez no início de setembro, e depois aqui no Recife, na minha loja da Galeria Joana D’Arc. Eu também quero ir em Natal…  Mas, por enquanto, são alguns projetos e ideias.

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