Giro Blog

Entenda como funciona o Fab Lab Recife: ” Inauguramos em 2014 e ninguém sabia o que danado era”, diz Edgar Andrade

Entenda como funciona o Fab Lab Recife: ” Inauguramos em 2014 e ninguém sabia o que danado era”, diz Edgar Andrade

A cultura maker é um conjunto de subculturas relacionadas ao desenvolvimento de novas tecnologias e customização de tecnologias já existentes. Ela abrange vários tipos de pessoas, representa valores diferentes dependendo da situação em que é aplicada e pode resultar em vários modelos de negócios e produtos diferentes. Entre as mais diversas áreas em que a encontramos, temos a computação, robótica, impressão 3D, animação, arte digital e até artes aplicadas mais tradicionais como carpintaria.

Esta cultura moderna tem em sua base a ideia de que pessoas comuns podem construir, consertar, modificar e fabricar os mais diversos tipos de objetos e projetos com suas próprias mãos. Os Fab Labs surgiram para acolher esse movimento e têm como proposta ser um hub de articulação de negócios, seja para a promoção de marcas de uma forma ousada e conectada com o futuro, para o desenvolvimento de novos produtos ou para a realização de eventos que estimulem o empreendedorismo e a inovação. Em 2014, surgiu o primeiro no Recife, algo inovador na cidade. “Trabalhamos com inovação desde 2010, inauguramos o Fab Lab Recife em 2014 e ninguém sabia o que danado era fabricação digital, prototipagem rápida, muito menos o que seria um Fab Lab. O nosso laboratório foi o primeiro ambiente do Nordeste literalmente aberto para a comunidade maker”, explicou Edgar Andrade. 

O conceito de Fab Lab surgiu como uma colaboração entre o Media Lab do Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT) e o Center for Bits and Atoms com a concessão da Fundação de Ciências Naturais (Washington, D.C.) em 2001. Hoje, 17 anos depois da idealização e implementação do projeto mundo afora, encontramos mais de 1.200 Fab Labs pelo mundo, sendo 40 deles no Brasil, com 5 sedes no Nordeste.

Mapa mundial de Fab Labs – Crédito: Reprodução/www.fablabs.io

Edgar Andrade, fundador do primeiro Fab Lab do Nordeste, acredita que promover a inovação e estimular o desenvolvimento de novas soluções e modelos de negócios seja uma missão de vida. Empreendedor por natureza, foi representante do Nordeste da INSEED Investimentos, uma das principais gestoras de fundos de capital empreendedor do Brasil, e entende que buscar bons problemas e juntar gente para resolvê-los faz parte de sua essência.

Edgar Andrade, fundador do primeiro Fab Lab do Nordeste – Crédito: Arquivo Pessoal

Como você conheceu o Fab Lab?

Estávamos desenvolvendo um job para a Secretaria de Turismo de Recife. A ideia era fazermos uma lixeira interativa e uma conversa com Breno Vila Nova, da Arclima, nos salvou. Ele liberou a sua fábrica e seu pessoal para nos ajudar no projeto. Só que teve um dia em que a gente foi até a Arclima e não foi possível trabalhar, pois o pessoal de lá tinha tido algum problema. Depois de um trânsito danado para voltar ao nosso escritório cheguei comentando que seria massa se a gente tivesse um lugar para desenvolver nossos projetos, um lugar que não dependesse dos amigos como Breno. Rodrigo Medeiros estava conosco e comentou que tínhamos que conversar com Heloísa Neves para nos ajudar a montar um Fab Lab no Recife. Foi a partir das lixeiras interativas que tudo mudou na minha vida e na de Betita Valentim, minha única sócia na época (hoje somos cinco).

O que despertou interesse fazer em parte do movimento Fab Lab?

A possibilidade de prototipar o mundo. Esse trecho de uma fala de Silvio Meira sobre o Fab Lab Recife resume tudo: “Olhar para um problema e entender que a partir dele é possível desenvolver algo que possa virar negócio ou mudar a vida de alguém, ou quem sabe até de muita gente, é transformador”. Não há limites para a criação e o Movimento Maker permite que se junte muita gente diferente para transformar ideias em coisas palpáveis, em projetos participativos e também artefatos físicos relevantes.

O Fab Lab Recife, localizado no Paço Alfândega – Crédito: Divulgação/Fab Lab Recife

Como a sua iniciativa está ajudando a cena local?

Trabalhamos com inovação desde 2010, inauguramos o Fab Lab Recife em 2014 e ninguém sabia o que danado era fabricação digital, prototipagem rápida, muito menos o que seria um Fab Lab. Estamos tentando desde então derrubar a barreira mais importante que é a da cultura do “façam por mim”, para a construção da cultura do “Faça Você Mesmo”. Ops! “Façamos nós mesmos juntos”. O nosso laboratório foi o primeiro ambiente do Nordeste literalmente aberto para a comunidade maker. Muitos deles, como Paulo Luthier, que sempre foi maker mas ainda não usava esse termo, como Natália Tapety, nossa usuária 0001, que começou a desenvolver os produtos do Estúdio Lama antes mesmo da inauguração. Ajudamos na concepção do Louco e quase nos juntamos a eles.

Acredito que hoje tenha várias pessoas que lembra da gente quando o assunto é movimento maker, prototipagem rápida, inovação no desenvolvimento de produtos, na escola, nas cidades. Esse reconhecimento é fruto de uma insistência enorme da gente ao longo dos últimos 4, 5 anos na construção da comunidade maker no Recife. Agora, com a repercussão que o tema vem ganhando no Brasil, com a visibilidade que estamos tendo, com a quantidade de gente e de empresas que nos procuram o tempo todo, sinto que estamos perto da virada em que nossas ações poderão exceder o nosso discurso, tão importante até agora nessa tarefa de fomentar a ideologia Maker e dos Fab Labs em nossa realidade local.

Até porque fazer coisas e colocar projetos bacanas na rua, está na nossa essência. Fico impressionado quando faço um balanço do que fizemos até aqui e penso: se os governos e empresas tivessem acreditado na gente há quatro anos como estão acreditando agora, Recife seria a principal referência do movimento maker no Brasil. Porque sem dúvida o que a gente fez teria irradiado numa proporção incrível, existiram outros laboratórios além do nosso e do Louco. 

A Cultura Maker permite que as pessoas exerçam, através dos Fab Labs, sua criatividade e espírito inovador
Crédito: Divulgação/Fab Lab Recife

Qual é  o maior desafio quando se refere à inovação no Brasil?

Precisamos vencer a barreira da caretice. Ninguém quer correr risco no Brasil. O judiciário, o governo, o banco, o investidor… tem até empreendedor careta. Quase todo mundo é careta, sobram poucos. Todo mundo quer subsídio, ninguém quer botar dinheiro do bolso numa ideia para transformá-la num negócio. Vai vender apartamento, carro, se endividar porque acredita que pode fazer algo transformador? Conheço poucos no Brasil. A quantidade de dinheiro investido em startups, por exemplo, é ridícula se formos comparar com outros países. Não lembro onde li, mas achei essa frase interessante: a inovação vem da qualidade das startups e a qualidade vem da quantidade de empresas investidas. Por aqui a galera comemora aceleradora com 10 empresas embarcadas e 5 ou 10 milhões para investir. E olhe que não estou criticando esses guerreiros! Se não fossem eles não teríamos nada. Agora pense o que aconteceria no Brasil se 10% da grana investida pelo BNDES nas super campeãs tivessem sido direcionadas para promover a inovação nas pequenas e médias empresas, responsáveis pela maioria dos empregos desse país. O Criatec é uma experiência incrível, tocada por uma equipe comprometida do banco e que não se contaminou pela politicagem, mas que para mim parece mais um “cala a boca” do que uma política pública estruturadora. Deveria ter pelo menos 10 vezes mais recursos para investir. E aí?

Qual o maior desafio para manter o Fab Lab Recife ativo?

Vencer a barreira cultural. Fazer as pessoas e empresas entenderem que o mundo está mudando rapidamente e que em 10 anos existirão três tipos de empresas: as falidas, as que lutarão para sobreviver e as que determinarão as tendências que impactarão os negócios e as cidades no Brasil, ou quem sabe no mundo. Queremos ajudar as empresas pernambucanas e brasileiras a serem geradoras de tendências, enxergando na cultura maker um poderoso processo criativo para encontrar soluções e rapidamente prototipar produtos e serviços inovadores. Para fazer isso acontecer, contamos com um time incrível que começou comigo e Betita Valentim lá em 2014, chegando depois Cris Lacerda, Mariana da Mata e Letícia Falcão para formar o time que comanda o Fab Lab Recife. Hoje, já somos uma equipe transdisciplinar composto por 12 pessoas de diferentes áreas como Design, Comunicação, Administração, Psicologia, Educação, Computação, Automação e Eletrônica, ampliando o alcance e as potencialidades de atuação do Fab Lab Recife junto à sociedade e ao mercado.

Quando vocês começaram o projeto do Fab Lab, quais eram suas expectativas e objetivos?

 A expectativa como projeto inicial, para além das atribuições usuais de um laboratório de Fabricação Digital, era ter o Fab Lab Recife como um grande parque de experimentações urbanas para a melhoria da qualidade de vida da população, através da criação participativa de protótipos interativos e inovadores. Hoje, continuamos muito próximos à prototipagem urbana, mas ampliando nossa atuação para diversas áreas como negócios e educação, mantendo sempre a proposta de gerar um desenvolvimento tecnológico que leve à inovação social.

Você vai participar de um reality sobre cultura maker. Como foi o convite? 

Rita Wu, Ricardo Cavallini, Edgard Andrade e Marcelo Tas na gravação do novo programa sobre Cultura Maker para a Discovery Inc – Crédito: Arquivo Pessoal

Infelizmente não posso falar muito sobre o programa pois posso levar um carão do pessoal. Minha amiga Heloísa Neves sempre apoiou o Fab Lab Recife, desde as primeiras ideias. Para completar, me indicou para o pessoal do programa e terminaram me chamando para fazer um teste em São Paulo. Soltei aquelas brincadeiras de costume, misturando com as provocações mais sérias que costumo fazer e parece que isso agradou o pessoal. O resultado é que estou fazendo parte de um time incrível do Discovery Channel, da Academia de Filmes, com Marcelo Tas, Rita Wu e Ricardo Cavalini, provocando boas confusões por aqui. 

Quando será a nova edição do Movimento Mulheres Makers? Como funciona?

O Movimento Mulheres Makers  é uma iniciativa tecnofeminista em rede, sem fins lucrativos, criada com o intuito de empoderar e incentivar mais mulheres na atuação em Ciência, Tecnologia & Inovação, em especial no universo do Movimento Maker, do Tecnofeminismo e do Empreendedorismo Feminino a partir de técnicas DIY (Do It Yourself – Faça Você Mesma) e DIWO (Do It With Others – Faça Com As Outras).

Movimento Mulheres Makers pretende empoderar e incentivar  mulheres na atuação em Ciência, Tecnologia & Inovação – Crédito: Divulgação/Fab Lab Recife 

Assim,o objetivo do MMM é despertar o interesse, desenvolver habilidades e criar mais oportunidades de geração de renda a mulheres cis ou trans, profissionais ou amadoras, jovens ou em situação de vulnerabilidade, com o uso e ocupação de Fab Labs, oficinas e makerspaces no Brasil, capacitando tais mulheres e democratizando o seu acesso técnico e financeiro às novas tecnologias exponenciais de Fabricação Digital. 

Movimento Mulheres Makers no Fab Lab Recife – Crédito: Divulgação/Fab Lab Recife

E a Maker School, como funciona?

A Maker School é a escola de aprendizagem criativa e experimentação mão-na-massa do Fab Lab Recife, que articula Processos Colaborativos, Pedagogia Ativa e abordagem de Aprendizagem Baseada em Desafios para formação de crianças e jovens em novas tecnologias portadoras de futuro. Foi construída através de 4 anos de experiência do Fab Lab Recife em atividades de Educação Maker, e atualmente é liderada por Betita Valentim, nossa Coordenadora de Educação Maker, contando com a parceria da ABA Global Education e do Laboratório de Pesquisa e Prática – Educação, Metodologias e Tecnologias, do Centro de Educação da UFPE, por meio da qual professores e pesquisadores trabalham colaborativamente com o time do Fab Lab Recife na consolidação do alinhamento da Maker School à BNCC (Base Nacional Comum Curricular), oferecendo um programa completo de Educação Maker para escolas públicas e privadas.

Na Maker School, os alunos são estimulados a usarem tecnologias inovadoras  – Crédito: Divulgação/Fab Lab Recife

Na Maker School, os alunos são estimulados a utilizar tecnologias inovadoras de prototipagem rápida para a resolução de desafios conectados à realidade em que vivem. Através da Pedagogia Ativa, conjunto de abordagens que movem alunos para além do papel espectador em aulas tradicionais, promovemos atividades que os engajam em experimentos, práticas e resoluções de problemas reais.

Maker School
Crédito: Divulgação/Fab Lab Recife

Neste processo de experimentação, o aluno é capacitado para a utilização de máquinas e ferramentas de Fabricação Digital como impressora 3D, cortadoras a laser e de vinil, kits de robótica e componentes eletrônicos, além de diversos materiais cotidianos para o desenvolvimento de seus projetos – que chamamos de Desafios. A abordagem de Aprendizagem Baseada em Desafios (CBL) é utilizada por gigantes da tecnologia como a Apple, e na Maker School, trazemos a CBL de modo simples e divertido para nossos alunos. Assim, nesta jornada de transpor desafios pela cultura do protótipo, aprender com os erros é um processo natural e essencial para a Inovação.


Vocês pretendem abrir novas unidades de Fab Labs no Recife?

Queremos ajudar a espalhar Fab Labs e espaços makers por todo Brasil. Já iniciamos a implementação de laboratórios como os nossos em escolas públicas, um projeto de educação intitulado Jornada Maker, em parceria com a Prefeitura da Cidade do Recife. A primeira delas será a Escola Municipal Pedro Augusto, onde já começamos a executar o projeto. Estamos em negociações avançadas com algumas escolas privadas e também muito em breve anunciaremos a primeira universidade privada do Recife conectada de verdade com o futuro. É um movimento que não tem volta.

A transformação acontecerá através de uma mudança radical na forma como preparamos nossas crianças e jovens para um mundo que muda rapidamente. Você sabia que 65% das crianças que estão hoje no ensino fundamental vão trabalhar em profissões que ainda não existem? Velhos conceitos deixam de fazer sentido, precisamos construir um novo modelo de sociedade e esse processo começa nas escolas. A dúvida é quais escolas sairão na frente. 

 

Equipamentos inovadores no Fab Lab Recife – Crédito: Marcelo Marona/Class Casa


Quais são as máquinas presentes no Fab Lab Recife que merecem destaque?

As impressoras 3D causam um certo fascínio nas pessoas. A gente se acostuma, mas realmente é meio mágico ver um bit se transformando em átomo. É muito legal! A cortadora a laser é a máquina mais fácil de usar e a que dá para fazer mais coisas. Até eu consigo! Já pensou? Qualquer software de desenho vetorial pode ser utilizado para criar seu projeto, existem sites que te ajudam nisso, dá pra baixar muitos projetos bacanas e começar a experimentar. A CNC Router pra mim é a melhor máquina de todas. Ela tem uma área de trabalho relevante e fresa madeiras de até 5cm de espessura. Já pensou no tamanho do quebra cabeça que poderíamos montar com várias peças de 2 x 1,30m? Além das minhas máquinas favoritas, temos uma cortadora de vinil, fresadora de precisão e bancada de eletrônicos. Dá pra fazer muita coisa bacana no Fab Lab Recife. Dá pra fazer quase tudo! É só chegar.

Compartilhe este post