A aventura de Ivanildo Sampaio num voo da Paraense

Depois de ler meu artigo em que lembrei a Paraense, uma das empresas aéreas que já fez voos para o Recife, o companheiro Ivanildo Sampaio fez este excelente comentários sobre a aventura que viveu, numa véspera de Natal num dos aviões daquela empresa.
“Lendo teu artigo de hoje lembrei que nesta ante-véspera de Natal completaram-se 51 anos que fiz meu último vôo num avião da Paraense. Eu era repórter da Manchete, estava produzindo uma série de matérias para uma edição especial sobre a Amazônia e, depois de 28 dias correndo pela Região, peguei, junto com o fotógrafo Sebastião Barbosa, um vôo de Santarém para Belém, num desgastado Hirondelle, que já vinha de Manaus quase lotado. Era final da tarde, quase noite, quando embarcamos.
A previsão era de duas horas e meia de vôo. Mal decolamos, a comissária me serviu uma dose de San Rafael, que naquela época era comum nos vôos domésticos. Antes que eu tomasse o primeiro gole, vi pela janela um risco de fogo numa das turbinas – eram apenas duas – que imediatamente deixou de funcionar. O avião tombou de um lado, perdeu altitude, o pânico espalhou-se e para completar esse quadro, caía uma tempestade violenta, acompanhada de raios e trovões. La fora, a escuridão da floresta amazônica.
Para resumir: voamos quase duas horas com uma única turbina, debaixo de chuva, atravessando a floresta e perdendo altitude gradativamente. Até que começamos a avistar as luzes de Belém, lá na linha do horizonte. E conseguimos pousar em paz, com a graça de Deus e a habilidade do piloto . No Aeroporto, fechado para outros vôos, a pista estava coberta de espuma, carros de bombeiros e ambulância estavam de prontidão, todo mundo preparado para o pior.
Foi esse mesmo avião que viria a cair (acho que na Baía de Guamá, não de Guajará-Mirim) e levar o nosso Coronel Ludugero, num acidente que deveria ser classificado como crime: depois daquele vôo, o velho Hirondelle não deveria ter continuado voando, porque estava escrito que mais cedo ou mais tarde iria cair. Foi a partir desse vôo que comecei a ter medo de avião.”

