Lembranco o sucesso da Fecin

No meu artigo de hoje na página de opinião relembro um evento que marcou época no Recife. A Feira do Comércio e Indústria do Nordeste, que aconteceu durante muitos anos. Primeiro no atual espaço do Ceasa; depois no Parque da Jaqueira. Reunia todos os anos um milhão de pessoas, com estandes de empresas, parque de diversões e shows.

A Feira do Comércio e da Indústria do Nordeste – a Fecin – foi criada por Vicente Silva, dono da Vicar, uma das principais agências de publicidade de Pernambuco, que tinha ficado famosa por comandar a vitoriosa campanha de Cid Sampaio a governador. A primeira edição foi em 1966 no Curado, na área onde atualmente funciona o Ceasa. Fiz a cobertura do evento, como repórter da editoria de Economia. Foi, digamos, a “Disneylândia” local, tantas as atrações que oferecia e que atraia multidões todos os dias. Eram duas áreas distintas. Na primeira, um pavilhão com estandes de empresas de toda a região. Tinha o apoio do governo do estado e da Sudene e onde centenas de negócios eram fechados. Um evento tão grande, que o “Correio da Manhã”, na época um dos principais jornais do país, públicou reportagem de página inteira com o título: “Fecin: a Maior Feira-Exposição do Nordeste.” Todos os anos atraia empresários do Nordeste para conhecer as novidades que as empresas mostravam.
A maior atração estava mesmo no outro espaço, o Parque de Diversões 2001. Como Mariana Mesquita lembra, entre os vários brinquedos, se destacava um enorme tobogã, sinônimo nacional de modernidade e ousadia (a febre era tamanha em todo o país que motivou Raul Seixas a reclamar: “macaco, praia, carro, jornal, tobogã, eu acho tudo isso um saco”). Para deslizar no imenso escorrego, era preciso sentar sobre um tapete ou saco de estopa; o atrito era tão grande que os desavisados que tiravam as mãos do pano e tocavam na rampa sofriam queimaduras. Por causa disso, e pela altura do brinquedo, muitos saudosistas relatam o trauma de jamais terem descido no tobogã por culpa das avós e das mães.
Restava como consolo a chance de brincar em outros brinquedos menos emocionantes. Como trem-fantasma, a roda-gigante, os carrinhos elétricos, os jogos eletrônicos. E para os mais corajosos a apresentação de Monga, a mulher que se transformava em gorila. E também aproveitar as delícias nas barracas que vendiam cachorro-quente, algodão doce e maçã caramelada (a chamada Maçã do Amor). No meio da noite, tínhamos shows com cantores famosos. Nos fins de semana, à tarde, espetáculos infantis, como o de Carequinha, na época o mais famoso palhaço do país. Como era uma área muito afastada do centro e dos bairros residenciais e não havia a facilidade de hoje para se ter um carro, Vicente Silva conseguiu com a CTU, a empresa da Prefeitura do Recife, linhas de ônibus partindo de várias partes da cidade, que funcionava exatamente no horário da feira.
Depois de três anos, a Fecin veio para o Parque da Jaqueira, que era um terreno vazio, em torno da Capelinha. O evento era sazonal, entre novembro e janeiro. Sempre atraia um milhão de pessoas. E no resto do ano era um lugar abandonado, que ficava na escuridão total. Era perigoso e rolava prostituição escancarada, a céu aberto. Considerada como um equipamento voltado ao público, a feira chegou a receber isenção de impostos. Funcionou durante muitos anos e está, com certeza, na lembrança de muita gente, era o principal programa da cidade no final do ano. Programa que reunia empresários em torno dos negócios, políticos, em busca de votos e pais levando os filhos. Além disso, os jovens transformaram o local no principal ponto de paquera. Alguns casais se formaram depois de namoros que começaram nas Fecin.
Depois do fim da Fecin e muitos anos de abandono, o prefeito Joaquim Francisco conseguiu com o INSS, dono da área, o direito de construir o parque, inaugurado em 1984 e até hoje o local mais frequentado pelos moradores da região, Graças, Aflitos, Parnamirim.
