A morte de uma grande jornalista

Recebi uma notícia muito triste neste domingo. A morte da jornalista Valdelusa D’Arce, que estava hospitalizada há alguns dias, vítima de AVC. Convivi muitos anos com ela, na redação do Diário, uma jornalista competentíssima, de texto apurado e uma bela figura humana. Para lembra-la, este lindo texto de Lêda Rivas, as duas amigas queridas que encontrei incontáveis vezes na redação do Cadeno Viver. Vá com Deus, querida amiga.
Tinha que ser num domingo, não é, Val? Dia de sol, de praia e de umas geladas, em Itamaracá, sua terra do coração, onde o inverno se disfarça em cores e cirandas, e onde você plantou, como sonhava, seu refúgio, seu porto seguro. Determinada e detalhista, tinha mesmo que escolher o momento de partir. Cansou-se do sofrimento, da expectativa, da incerteza, e, bem ao seu estilo, bateu o martelo e virou a mesa. E seguiu, como quem parte em um cruzeiro, numa nave, vocação de viajante, aberta ao encontro de outros mundos.
Vá na luz de Deus, minha amiga, mas, por favor, não me desaponte: não se acomode. Faça barulho, quando chegar, ponha ordem na casa, se for preciso (Deus vai aprovar a sua assessoria) convoque os amados, a nossa gente do Diario de Pernambuco, os que se foram antes de nós rumo às estrelas. Adeth Leite, seu amigo esquisitão, estará à sua espera, e a ele se juntarão outros tantos.
Vou omitir alguns, por falha de lembrança, mas resgato os que me ocorrem. Nosso chefe Antonio Camelo vai estar na porta principal, arrancando de você as novidades do dia; Mauro Mota, o poeta maior, já compôs uns versos em sua homenagem; Lúcio Costa vai recebê-la com um abraço apertado; Orismar Rodrigues será seu mestre-de-cerimônias: Fernando Spencer passará a eternidade falando de cinema; Zé Maria Garcia vai levá-la ao Savoy do céu; Fernando da Cruz Gouveia lhe mostrará o grande arquivo que construiu para a memória do Criador; com Mary Lúcia Sena você dará boas gargalhadas; Loyde Reis, a nossa Tia Lóla, tem uma edição fresquinha do Júnior para lhe entregar.
Por favor, dê um beijo em Selênio Homem, o maior repórter que conhecemos, tire por menos as brincadeiras de Gilberto Prado, o Betoca, e não discuta com Manoel Barbosa, que ele é da turma do bem. Finalmente, não se esqueça de dizer a Potiguar Matos que guarde bem direitinho a metade de mim que ele levou.
Vá arrumando os espaços enquanto espera os que restamos. Separe o meu lugar, de preferência, um jardim que cheire a lavanda, com vista para o mar, de onde eu enxergue a Ibéria e reencontre os caminhos por onde andou o coração do meu pai.
Qualquer dia, amiga, a gente vai se encontrar.
