Um estádio lotado e duas doses de Paul
As camisas em cujas costas se lê “Paul McCartney On The Run – Recife – EU FUI!” poderiam ser complementadas por mais duas palavras já muitíssimo publicadas nas redes sociais dos pernambucanos: “… e adorei!”. Afinal, os comentários positivos dos fãs chovem aos litros pela web desde que Sir. McCartney desembarcou por aqui. E vale ressaltar: os fãs aos quais se pode fazer referência não se resumem a beatlemaníacos, mas incluem também os bairristas. Fãs de Pernambuco, fãs do Recife e da cartela de possibilidades de megashows aberta pelas mãos do Paul este fim de semana.
O show do domingo, ao contrário do que se temia, mostrou novamente um Arruda repleto de gente disposta a fazer coro e embarcar por três horas no universo do ex-Beatle e seus hits atemporais. Paul, que um dia já foi um dos Garotos de Liverpool, mostrou à capital pernambucana que agora está transformado num Lorde. Educado, polido, gentil e carismático, ele encantou a plateia diante de si e de suas tentativas de um português até bem articulado. “Povo arretado”, “Salve a terra de Luiz Gonzaga” e outras sentenças semelhantes levavam o público aos gritos. O ápice da versão Paul nordestino veio quando o astro levou uma das mãos à testa, balançou a cabeça e suspirou um “Oxente…” praticamente perfeito.
Os fogos em Live And Let Die esquentaram literalmente quem circulava pela Pista Premium e proporcionaram um verdadeiro espetáculo visual aos mais afastados. Das cadeiras, o palco impressionava pela dimensão, emoldurado por dois telões gigantescos. Mas disso, todos já sabiam desde o sábado. A diferença da noite de ontem esteve mesmo no repertório. A ordem das músicas foi alterada, sendo Hello, Goodbye (não tocada no dia anterior) a primeira da lista. Drive My Car, I’ve Just Seen a Face e I Saw Her Standing There também foram executadas, substituindo Got To Get You In My Life, Things We Said Today e Helter Skelter da setlist o sábado.
A plateia, longe léguas da apatia, vibrou ainda com um baterista à altura do carisma do Sir. McCartney. No comando das baquetas, Abe Laboriel Jr. brindou os recifenses com coreografias cheias de desenvoltura e rebolado. “Treinem essa dança para suas próximas festas”, disse Paul, desta vez em inglês. Para subir ao palco já no fim da noite, foram convidados alguns fãs. Primeiro, uma turista de Brasília, Cecília, cujo braço foi autografado por McCartney. Depois, pai e filho recifenses, que levaram o estádio a loucura, gritando “Ah, é Pernambuco!” num coro emocionante.
A pontualidade britânica do show, a megaestrutura de luz e som e a cortesia digna de nobreza de Paul McCartney foram os pontos altos do espetáculo. Na balança, os defeitos ficaram por conta das filas de acesso aos portões e ônibus, a dificuldade ainda resistente para se conseguir táxis proporcionais à demanda e os desgastes já sabidos (das goteiras à falta de banheiros) na estrutura do estádio. Mas nada que desfizesse o fato absoluto: por um eterno Beatle, a vontade e disposição em sair de casa e curtir um show às vésperas de uma segunda-feira são mesmo capazes de mover uma capital inteira em torno de uma noite histórica.





