Gustavo Agra fala sobre os desafios da produção cultural no Recife
A palavra cultura, derivada do latim colere, tem como significado literal “cultivar”. A partir disso, podemos perceber que a cultura se trata de uma herança acumulada ao longo dos anos e que deve ser preservada. A identidade cultural, em níveis diferentes, constrói a consciência de um povo, e produções de projetos como espetáculos e shows são necessárias para estimular o consumo de produtos culturais pela população, tendo assim a manutenção e perpetuação da cultura de uma determinada região.
Em uma pesquisa realizada pelo SESC identificamos que há uma carência de grande parte da população por mais projetos associados à cultura. Os dados obtidos a partir do estudo mostram que, quando se fala de gêneros de teatro, 33% preferem comédia, ao passo que 28% não sabem ou nunca foram ao teatro. Exposições e manifestações culturais artísticas são menos procuradas pelo público. Dos indivíduos abordados, somente 14% vão a exposições de arte, 26% nunca foram e 26% não têm preferência por nenhum tipo de exposição. Dentre os gostos musicais, 40% apontam o sertanejo como ritmo favorito, enquanto em segundo lugar está ranqueada a MPB, com 23%. Já entre as danças, o forró é a favorita, com 22%, seguida pela dança de salão e o samba, com 11% cada um.
Apesar de abalada com a crise econômica que enfrentamos atualmente, a população recifense ainda têm grande apreço por eventos culturais. “As pessoas estão mais seletivas – escolhendo melhor o que vai pagar para ver. Os espetáculos pequenos/médios perderam bastante espaço. Espero que o novo governo venha com dias melhores para o segmento”, explicou Gustavo Agra, empresário artístico responsável pela Art Rec Produções – produtora de eventos artísticos e culturais na capital pernambucana.

Gustavo Agra com Ingrid Guimarães e Heloisa Perrissé – Crédito: Nando Chiappetta/DP
Por que você decidiu empreender no ramo de produção de eventos artísticos?
A ideia surgiu em 1996, por uma oportunidade de mercado na cidade de João Pessoa. Percebemos que lá não havia nenhum bloco importante na semana pré-carnavalesca, como tem aqui no Recife. A atração foi o antigo Gera Samba, depois É o Tchan, no auge de Carla Perez, Beto Jamaica e Compadre Washington. Foi um grande sucesso de público, mas tivemos muitos problemas operacionais por conta da inexperiência. A partir daí, as oportunidades foram surgindo.
Qual foi o maior desafio ao começar?
Como em todo segmento, a falta de experiência. Também existiu a questão financeira e os grandes prejuízos por escolhas erradas – alguns que levaram anos para serem pagos.
Você enfrenta algum obstáculo ao trabalhar com produção cultural?
As dificuldades são enormes. Falta de patrocínio, distância dos maiores centros (RJ e SP) – o que encarece nosso custo de produção por conta de passagens aéreas, transporte de cenários… Outra coisa que pesa negativamente é o fechamento do Teatro da UFPE, pois hoje só temos o Guararapes com capacidade de receber grandes espetáculos.
Quais foram os artistas mais exigentes que você já lidou?
Em questões pessoais, Maria Bethânia – mas isso não quer dizer que ela seja problemática. É exigente, mas muito organizada, isso nos ajuda a trabalhar. Na questão técnica, o Momix – um grupo americano de dança que mistura várias artes aos seus espetáculos – a iluminação deles é bem complicada, e tem um peso enorme no resultado do trabalho.
A crise econômica atingiu o cenário de entretenimento no Recife?
As pessoas estão mais seletivas – escolhendo melhor o que vai pagar para ver. Os espetáculos pequenos/médios perderam bastante espaço. Espero que o novo governo venha com dias melhores para o segmento.
Qual foi o maior desafio ao produzir um espetáculo?
A primeira turnê com o Ballet Imperial da Rússia. Foram 40 dias no Brasil, 24 apresentações em 12 cidades. Um desafio enorme, que felizmente deu certo e, a partir disso, conseguimos abrir portas com várias outras companhias de dança internacionais.

Gustavo Agra e Larissa Manoela – Crédito: Reprodução/Arquivo Pessoal
Com que frequência você viaja pra conhecer novos espetáculos/atrações?
Dentro do Brasil, eu viajo em torno de 8 a 10 vezes, em geral para São Paulo e Rio de Janeiro – onde estão concentrados os maiores espetáculos do país. Nos últimos anos também fui ao Cazaquistão, Tailândia, Espanha e Chile, sempre com o propósito de ver coisas novas. Sempre gosto de ir a São Paulo – pra mim é uma cidade de primeiro mundo em oferta de entretenimento.
Quais foram as produções mais marcantes que você teve a oportunidade de produzir?
Foram várias! A nível internacional, o Ballet Nacional de Cuba, pelo simbolismo e por ser uma “marca” de qualidade técnica incontestável. Tive o prazer de conviver com a Diva Alícia Alonso e toda a Companhia por 30 dias, pois fizemos apresentações por todo Brasil.
Você percebe algum padrão de consumo de entretenimento em relação ao público na cidade?
Hoje em dia os espetáculos dos youtubers, e em geral o humor tem grande aceitação.
Recife deixa a desejar quando se refere à estrutura para realização de espetáculos?
Sim! O fechamento do Teatro da UFPE se deu por falta de manutenção e também enfrentamos sérios problemas quanto a isso no Guararapes. Há muito o que fazer na área de camarins, palco, bilheteria e estrutura em geral. Existe boa vontade de alguns gestores, mas falta o investimento.

Gustavo Agra e Paulo Gustavo – Crédito: Reprodução/Arquivo Pessoal
Quais os lugares mais emblemáticos para a produção de eventos culturais no Recife?
Para mim, sem dúvida, o Teatro Guararapes.
Com quais artistas você teve a oportunidade de desenvolver um relação mais próxima?
Por uma questão de personalidade, em geral me mantenho distante. Mas tenho muito boa relação com a grande maioria que aqui vem. Gosto, em particular, do Paulo Gustavo, da Monica Martelli, da Heloísa Perisé e do Zé Lezin.
Existe algum objetivo que a Art Rec pretende alcançar?
Os objetivos são muitos – alguns secretos – mas eu teria um grande prazer se pudesse apresentar um espetáculo de dança clássica com uma grande Companhia e Orquestra ao vivo no Recife. Não lembro da última vez que isso aconteceu. Nossa missão é continuar trazendo cada vez mais espetáculos à nossa cidade. A empresa existe para tentar se superar ano após ano.
