Lembrando Cadoca Pereira

O artigo que publiquei na página de opinião do Diario de Pernambuco sobre Cadoca Pereira:
Carlos Eduardo Cintra da Costa Pereira faleceu ontem, vítima da Covid-19. Muita gente pode não saber quem era. Mas quando se cita Cadoca Pereira, todo mundo conhece. Uma pessoa especial, com uma história de vida dedicada ao Recife, capaz de exigir um livro para falar da sua trajetória.
Conheci Cadoca quando era um combativo vereador e brilhou numa campanha política, como grande destaque do guia Eleitoral, em criticava os opositores, mas me aproximei deles quando Jarbas Vasconcelos, que me havia prometido o furo do nome do secretário de turismo, me apresentou brincando: “Este é o tupamaro” que vai comandar o turismo da cidade do Recife, referencia ao grupo terrorista que atuava no Uruguai..
Sem conhecer o setor, teve a humildade de chamar algumas pessoas para as primeiras orientações. Fui um deles, junto com Elder Lins Teixeira e o saudoso Augusto Boudoux. Foi apenas digamos o “ponta-pé” inicial. Logo, ele passou a dominar a área e fez uma administração fantástica, com grandes iniciativas. A maior delas, sem dúvida, o Recifolia, que reunia uma multidão em desfiles da semana pré-carnavalesca, na Avenida Boa Viagem, e que foi o primeiro passo para dar uma dimensão nacional ao nosso carnaval. E foram muitas outras, como o “Boi Voador” na Ponte Maurício de Nassau e que depois levou para vitorioso evento em Amsterdam. Foi um secretário tão eficiente, que permaneceu no cargo, no governo seguinte, de Roberto Magalhães. Quando Jarbas incrementou a Rua do Bom Jesus, teve importante participação, inclusive criando o “Dançando na Rua”, um sucesso por anos.
Na sua ida para o governo do estado, tive a única intervenção política na minha vida. Fui chamado por Jarbas Vasconcelos, que ia assumir o governo do estado, para tentar convencer Cadoca a ser seu secretário de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Esportes. Ele queria que fosse apenas secretário de turismo. Foi num almoço na casa de Elder Lins Teixeira, em Piedade (que era chamada de Clube da Empetur desde que ele presidira a empresa). Foi necessária muita conversa para ele dar o sim. Só pude dar a resposta a Jarbas no início da noite. E acabou se destacando também nas duas outras áreas, mostrando o feeling do senador., um expert em formação de equipes.
No governo do estado, mais muitas ações de sucesso. Incrementou o Festival de Inverno de Garanhuns, levando o governador, jornalistas de outros estados para cobrir o evento e orientando, com a experiência do Recifolia, o organizadores na contratação dos artistas.
Deu dimensão nacional a três eventos do estado, organizando a vinda de representantes do principais jornais do país: A Missa do Vaqueiro, em Serrita, o Carnaval dos Papangus, em Bezerros e dos Caretas, em Triunfo. Todos três tiveram matéria de destaque nas edições de carnaval da Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e O Globo. Ainda com Roberto Magalhães, começou a investir no carnaval do Recife Antigo, até transformá-lo num dos maiores do estado, junto com Olinda.
Apaixonado pelas viagens foi um globe-trotter. Fiz várias viagens com ele participando de feiras de turismo pelo mundo, divulgando nosso estado. Era, assim como eu, um apaixonado por Nova York. Lá ficava no apartamento de um cunhado e onde ia quase todos os anos. Uma vez, ficamos presos na cidade, depois de uma tempestade. Recordo que ele precisou de quatro dias, com escalas em vários países para voltar. Pelo turismo e como enviado da Câmara dos Deputados esteve em vários países, inclusive do Oriente. A mais recente, que ele falava com entusiasmo foi uma temporada de 10 dias no apartamento de Roberto Pandolfi, no centro de Veneza. Garantia que tinha conhecido tudo da bela cidade italiana, inclusive convivendo com os moradores.
Teve uma ação importante na cidade: quando o Bal Masqué do Internacional passava por uma crise e estava ameaçado de fechar, atendeu a um pedido de Terezinha Nunes e assumiu a coordenação da festa. Atraiu a juventude, com a escolha da “Rainha do Recifolia” e a festa voltou a ser um enorme sucesso. Aliás, sua empatia com os jovens era impressionante. Nas suas muitas campanhas políticas vitoriosas, teve uma militância muito forte, de jovens.
Perco um amigo e não vou ter mais direito a um dos meus programas preferidos: o almoço mensal, com ele e Elder Lins Teixeira. Sempre regado a um bom vinho, tema que Cadoca se dizia expert. Mesmo eu sempre sabendo que seu vinho predileto era o português Cartucha Reserva.
Poderia falar muito mais do querido amigo que nos deixou, ontem, quando cedo recebi a terrível notícia da sua morte. Sabia da gravidade do seu quadro de saúde, mas tinha muita esperança de ainda ter a companhia dele por muitos anos. Foi um domingo muito triste para seus amigos. E Cadova tinha uma fidelidade, digamos canina, com seus amigos, incluindo aqueles que foram seus assessores.
Para terminar uma confidência: Cadoca só tinha uma frustação: não ter sido presidente do Santa Cruz, outra da suas paixões. E para piorar, seus filhos são torcedores “doentes” do Sport. Vá em paz, querido amigo.
