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Lembrando uma crônica de Joca Souza Leão

Vale a pena relembrar esta crônica de Joca Souza Leão, uma figura que anda fazendo muita falta::

“ Anos 1960/1970. Jovens de classe média, estudantes, simpatizantes e militantes de esquerda; uns com pretensão intelectual, outros com vocação. Calça jeans, camiseta, cabelo grande e a barba possível. Quem tinha barba fechada (“barba de santo bom, como São Pedro” – dizia-se), melhor; quem tinha barba rala (“barba de santo safado”), como a minha, azar.

Mas eis que, de uns tempos pra cá, encontro cada vez menos barbados da minha geração por aí. Os sessentões e setentinhas estão quase todos de cara limpa, tão lisinhas quanto bunda de menino novo. E algumas barbas, portentosas naquele tempo, foram reduzidas a pequenos cavanhaques.

Anos 1980. O Brasil saindo da ditadura militar. Os passaportes brasileiros ainda tinham um baita carimbo na primeira página: “Não é válido para Cuba”. Roberto d’Ávila pauta Fidel Castro para o Conexão Internacional, da extinta TV Manchete. (Tô dizendo essas coisas para que os jovens leitores entendam o tamanho da encrenca). O d’Ávila havia sido o primeiro repórter a entrevistar, para a televisão, Arraes, Brizola, Prestes, Darcy, Boal e outros brasileiros quando ainda viviam no exílio. Dessa vez, convoca um exército do bem para ajudá-lo na empreitada. Políticos, artistas e intelectuais. Todos amigos de Fidel. De Gabriel García Márquez a Chico Buarque. Até que consegue marcar a entrevista.

Aos poucos, o entrevistado vai cedendo ao tom ameno de uma boa conversa. D’Ávila pergunta-lhe por que alguns ex-combatentes não ostentavam mais suas barbas. “Motivos ideológicos?” Fidel ri. Diz que na Sierra Maestra não havia barbearia nem onde comprar navalha. Durante a luta, passaram a ser chamados los barbudos. Vitoriosos, a barba se tornou símbolo da revolução. Sugere que a preserva também porque “se perde muito tempo, cerca de 15 minutos por dia, para fazer a barba, o que representa muitas horas desperdiçadas ao longo da vida”.

Mas reconhece que há um inconveniente: los pelos de la barba son los primeros en volverse blancos.

Velhice. Taí, caro leitor, porque muita gente da minha, diga-se, brava geração cedeu nos últimos tempos às caras lisas e aos pequenos cavanhaques.

Eu, inclusive.”

Author: João Alberto

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