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Recife perdeu Joel Datz, o irmão evento

Sobre Joel Datz, o Irmão Evento que morreu no final de semana, vou transcrever a excelentematéria que a repórter Joana Suarez fez para o TAB Uol- Reporteres de Rua

Se para (quase) todo mundo está difícil viver há tanto tempo sem aglomeração nos fins de semana, calcula para um senhor que se alimentava de eventos, diariamente (e literalmente). Joel Datz, 75, é conhecido como “Irmão Evento” no Recife. Antes da pandemia, segundo suas contas, já tinha passado de 60 mil celebrações comparecidas em 40 anos – o que dá uma média de 4 festas por dia. E o que ele faz? Apenas comparece. E come…. A presença dele chegou a gerar uma lenda na cidade de que, “se um evento não contou com o Irmão Evento, não prestou”. Uma espécie de selo de qualidade. “Teve um cara que disse que ia me dar uma camisa para eu vestir quando gostasse do evento”, contou Joel. Conversei com Joel antes, durante e após 15 meses de pandemia. Apesar de ser arroz de festa na capital pernambucana, faz o tipo reservado: costuma se sentar sozinho nas festas e fica a observar os outros. Chega a ser misterioso. Não se expõe no maior palco dos dias atuais, as redes sociais. Irmão Evento sequer tem celular. “Nem nunca vou ter, eu vejo esse aparelho mandar nas pessoas, elas não fazem mais nada.

No tal casamento inesquecível entre os 60 mil eventos, Joel foi com o irmão Abrahão, 12 anos mais velho que ele. Eles eram vistos juntos e foram chamados de Irmãos Eventos por 15 anos – a forma singular veio quando o mais velho infartou e morreu em 1995 e Joel abraçou a missão sozinho. Apareciam ambos: altos, brancos, magros e portando barbas longas, aparadas a cada quatro anos, no 29 de fevereiro. Pareciam gêmeos. E gostavam, pois vestiam a mesma roupa. No primeiro lugar a que foram juntos, viraram personagens marcantes e começaram a ser convocados. Só se transportavam a pé ou de ônibus, se fosse muito longe. “Não pego carona com estranhos, porque todo mundo me conhece”, disse JoNão aderiu de jeito nenhum às lives, por razões óbvias, e fala que isso pra ele não é evento, não tem calor humano. “Pra ser evento (e para ele comparecer), tem que ter gente.” Joel até que tentou se adequar ao “novo normal”: foi chamado para fazer uma ponta numa peça teatral transmitida pelo Facebook do Museu do Holocausto de Curitiba. Para o papel, ensaiou as falas. Mas não tinha mais roupa elegante, de botão, que coubesse. Experimentou várias. Sem bater perna e comendo quentinhas que chegam todo dia para ele, engordou. Os meses de pandemia o fizeram ganhar 26 quilos. Para o irmão evento, é triste ver tudo fechado e se acabando. Além de assíduo nos espetáculos, ele é amante dos… – Da vida pessoal de Joel sabemos que é judeu nascido em Recife. Passou 12 anos no Rio de Janeiro e viajou apenas pela América do Sul. Não tem familiares. Morava desde criança com o irmão num casarão antigo na praça Chora Menino, área central, onde sempre era visto em um dos banco… – Aposentou-se como engenheiro. Desde a morte de Abrahão, foi morar em um apartamento perto da praça. Conta que dorme todos os dias no pátio do prédio — “que é para não perder a hora. Gosto de ver o dia clarear”. Os porteiros afirmam, porém, que ele tem medo de falecer em casa e de ninguém ficar sabendo. Ele já infartou em 2015, durante uma peça de comédia. Vacinado, espera-se que de covid-19 não morra, mas tem visto muitos amigos partirem.

Author: João Alberto

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