No Recife, CasaRosa acolhe mulheres do interior em tratamento do câncer de mama

Imagem ilustrativa – Crédito: Divulgação/Reprodução da internet

Todos os anos, o Outubro Rosa promove a conscientização sobre o câncer de mama e a importância de sua prevenção. O câncer é o tipo mais comum nas mulheres do mundo e no Brasil, atrás apenas do de pele não melanoma, respondendo por cerca de 28% dos casos novos a cada ano, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA). Somente em 2016, foram cerca de 57 mil novos casos no país.

Se descoberto ainda nos estágios iniciais a chance de cura é de 95%. O diagnóstico precoce pode ser feito através de mamografias, ultrassom e autoexame, enquanto o tratamento é feito principalmente por meio de cirurgias. Quimioterapia e radioterapia também fazem parte do processo.

No Recife, a CasaRosa acolhe e dá assistência para mulheres vindas do interior de Pernambuco para tratamento do câncer. Comandada por Bruna Trajano, Cristina Maranhão e Kadja Camilo, a ONG atua desde 2014 e já recebeu mais de 60 pacientes. Por meio de palestras, ações em empresas e vendas de produtos institucionais, a instituição arca com alimentação, acomodação e atendimento com psicólogos e nutricionistas: tudo à base do voluntariado.

A CasaRosa está aberta para  mulheres que precisam ser encaminhadas por um hospital público, desde o início do tratamento até o “estágio de cura”. O grande diferencial é que é uma casa de acolhimento exclusiva para mulheres vítimas do câncer de mama, o que torna o ambiente mais íntimo e cheio de empatia.

Bruna Trajano, Kadja Camilo e Cristina Maranhão. Crédito: Casa Rosa / Divulgação

Conversamos com Kadja Camilo, uma das diretoras da ONG, sobre o trabalho desenvolvido na CasaRosa, as principais dificuldades que as mulheres encontram para tratamento, formas de ajudar e conhecemos também histórias bonitas de superação e gratidão. Confira:

 Como surgiu a CasaRosa?

Surgiu em 2013, a partir de cinco amigas que queriam fazer uma organização. Uma delas, Cristina Maranhão, teve câncer de mama e serviu de inspiração. Nós começamos a pensar e partiu da própria Cristina a ideia de montar uma casa de acolhimento de mulheres vindas do interior. Ela já tinha essa experiência, trabalhando como diretora voluntária durante 10 anos no Imip, entendendo a necessidade das mulheres que vêm do interior para tratamento no Recife. Muitas vezes elas ficavam nas calçadas, passavam o dia todo sem um local e algumas até desistiam do tratamento porque não tinham como continuar na cidade.

Em 2014, nós alugamos a casa, que fica na Rua 24 de Junho, na Encruzilhada, e começamos uma campanha para mobiliá-la. Ela foi toda feita com ajuda de voluntários, que doaram os móveis, utensílios, dinheiro para as roupas de cama… E em maio de 2014 nós abrimos a CasaRosa. A partir daí,  divulgamos nos hospitais públicos – as mulheres têm que ser encaminhadas para lá. Até então, nós recebemos mulheres de diversas cidades do interior, além de outros estados. 

 Como funciona a ONG?

A casa tem o propósito maior do que só alojar. O objetivo é que a gente possa oferecer assistência psicossocial, melhorar a qualidade de vida e o emocional. O câncer de mama é diferenciado porque compromete muito a autoestima da mulher, porque às vezes é necessário tirar a mama – que representa a feminilidade e isso causa alguns efeitos negativos. Fazemos ações dentro da própria casa para elevar a autoestima ou levando elas para alguns outros lugares. Recentemente, levamos para assistir um filme, Além da cura e queremos manter isso como uma prática. Tem um efeito muito positivo. Também levamos para visitas nas empresas. O tratamento, geralmente, é feito em um horário e o outro fica ocioso, e muitas estão bem, já fazendo radioterapia, quando ficam mais estáveis. Então, convidamos elas para acompanhar nas visitas, dar depoimentos, falar um pouco de sua história.

Elas trocam experiências, têm abertura para conversar. A experiência de uma às vezes ajuda a outra. O propósito da CasaRosa é de acolher com amor. É transmitir o sentimento que a cura é possível, que há vida após o câncer e que pode até ficar melhor. Nós também damos orientações sobre como se alimentar melhor, sobre a importância da atividade física, enfim… Nós queremos que elas possam retornar ao lar melhores do que chegaram, transformadas por essa vivência, por esse convívio – que a gente procura promover com bastante alegria. Você não chega na casa e encontra pessoas doentes, você acha pessoas em tratamento e que vão sair melhores.

Qual a importância de um espaço como esse durante o tratamento do câncer de mama?

É muito importante porque, independente da classe socioeconômica, o fator emocional é o grande diferencial das pessoas. Isso contribui muito para que o tratamento tenha efeito. É importante esse acolhimento, os médicos nos reportam isso, é fundamental para o sucesso do tratamento. A gente percebe isso por causa do estado emocional delas. Quando elas chegam, nós dizemos: “queremos que você se preocupe apenas com seu tratamento. O resto, é com a gente”. Elas recebem alimentação de qualidade, roupa de cama, material de higiene. Elas não estão mais preocupadas com onde comer ou onde dormir. Elas só precisam ir para o tratamento e voltar, que vão ter a casa, lazer e companhia.

Infelizmente, as mulheres no interior não têm a cultura da prevenção, quando o câncer é identificado às vezes é em um estado já avançado. Pernambuco é um dos estados que tem um índice muito alto de câncer de mama. A previsão para este ano é de 60 mil novos casos. E no interior ainda há um agravamento pela falta de prevenção. Então, infelizmente, existe a mortalidade porque elas já estavam com metástase – é isso que mata. O segredo é realmente a descoberta no estágio inicial. A CasaRosa também tem como missão a diminuição do índice de câncer no estado, principalmente no Outubro Rosa, com nossas palestras. O nosso desejo, nossa meta, é chegar de alguma forma no interior, para que as mulheres comecem a tomar consciência de fazer o exame de forma preventiva, como rotina, e não ir ao médico quando têm algum problema. Não queremos só acolher, esperar que a doença ocorra.

Qual o diferencial da CasaRosa em comparação às outras casas de acolhimento?

Existem outras casas na cidade, mas a nossa é exclusiva para mulheres com câncer de mama. Elas se sentem melhores e mais à vontade. É a continuidade do lar, um lar provisório. É uma casa onde não tem homem, crianças e outros tipos de doença. As casas das prefeituras têm um atendimento geral. No nosso caso não é assim, elas podem escolher ir para lá.

A CasaRosa fica em uma rua no bairro da Encruzilhada – Crédito:Reprodução/Facebook

Quantas mulheres vocês podem receber?

Nós temos 12 leitos e se for preciso, a mulher pode ter uma acompanhante, desde que seja maior de 18 anos.  A casa está ficando pequena, queremos um lugar maior e estamos até fazendo uma campanha para conseguirmos mais doadores. Por exemplo, nos quiosques solidários no RioMar, em empresas… Nós levamos nossos produtos para vender em alguns lugares. Também fazemos bingos e bazar.

Qual o perfil das mulheres que vocês acolhem?

São as mulheres atendidas pelo SUS e precisam ser encaminhadas pelos hospitais do Recife: o Barão de Lucena, Imip, Hospital do Câncer, Oswaldo Cruz e das Hospital das Clínicas. Também recebemos as pacientes que são encaminhadas direto de Petrolina. As mulheres podem vir desde o primeiro dia de tratamento, passando pela cirurgia até a reconstrução. Elas terão o acesso, desde que encaminhadas pelo médico.

Crédito: Reprodução/Facebook

Quantas mulheres vocês já atenderam?

Já recebemos cerca de 65 usuárias. Temos também aquelas que voltam para os acompanhamentos. Depois de um ano do fim do tratamento, elas podem fazer a reconstrução da mama. Mas a maioria não volta, elas têm medo, não tem interesse. Nesses anos, recebemos apenas duas. Inclusive, estamos trabalhando para fazer uma oficina de prótese, de colocar no sutiã. E para isso precisamos ter uma máquina de costura, material. Também queremos ir para um espaço maior. Nós percebemos que elas preferem essa prótese, e então já poderiam sair daqui com tudo isso.

Quanto tempo elas podem ficar?

Nós temos o atendimento de day use, que é aquela que vem para fazer um exame e voltam para sua cidade e também as que ficam entre 60 e 70 dias, porque depende da quantidade de sessões de radioterapia. Não há limite e elas podem sempre retornar quando necessário. 

Quais as principais dificuldades que essas mulheres encontram ao receber o diagnóstico?

Quando recebem o diagnóstico no interior, a maior dificuldade é a de dar continuidade ao tratamento. Existe uma lei que diz que o tratamento deve ser iniciado em no máximo 60 dias, mas nem sempre isso é possível. Às vezes, é muito demorado para que elas consigam chegar ao tratamento, marcar a cirurgia. O local muitas vezes não tem hospital que faça o procedimento, então tem que sair da sua casa até um lugar que tenha. A maior dificuldade é conseguir realizar o tratamento pela distância mesmo. 

Qual a equipe que atua na CasaRosa?

Nós temos nutricionista, psicólogo e também os estudantes universitários que vêm para fazer alguma atividade com elas. Psicólogos, inclusive, podemos ter mais. Eles são todos voluntários e a lei só permite quatro horas semanais. Por isso, estamos abertos a outros trabalhos. Também temos uma equipe grande de voluntários no quiosque do RioMar, são 44 atuando em escala de horário. Temos também os voluntários que são convocados para eventos, vão para as palestras… No grupo que atua no quiosque, temos mulheres que passaram pelo câncer de mama, algumas inclusive em tratamento. Algumas estão em quimioterapia, mas ainda estão ajudando no quiosque. É uma experiência muito rica pra gente, é uma troca. Elas visitam a casa e é muito positivo, porque lá elas estão vendo alguém que já passou pelo que elas estão passando, que o cabelo já cresceu. Passa a ideia que existe a cura, que a vida vai continuar. Eu considero nosso grupo de voluntários, principalmente do quiosque, nossa grande riqueza.

Quiosque solidário no RioMar é montado no mês de outubro – Crédito: Reprodução/Facebook

O que é preciso para se tornar um voluntário?

 Você pode se tornar um voluntário por ter alguma habilidade manual, como um trabalho de tricô, pintura…. Ou pode simplesmente ir passar uma tarde com elas, conversar, mas principalmente ouvir, dar a oportunidade para que elas possam falar. Tudo que seja para melhorar a qualidade de vida delas. Você pode vir fazer um bolo, um lanche, tocar uma música, passar um filme… É só entrar em contato com a gente, nós encaminhamos a ficha de voluntário e a pessoa escolhe o dia da semana para ir até a CasaRosa. E também pode nos ajudar nas atividades externas.

Quais as principais dificuldades que a ONG tem enfrentado?

A maior dificuldade é a parte financeira. Nós temos duas funcionárias contratadas, que ficam na casa de dia e de noite. Temos folha de pagamento, aluguel, energia, impostos… Há um custo mensal. Recebemos muitas doações, principalmente no Outubro Rosa, mas alimentação sempre temos que complementar.

Nesses anos, teve alguma história marcante?

Nós sempre mantemos contato com nossas usuárias e temos oito que passaram por lá que vieram à óbito. Então sempre que recebemos a notícia é muito impactante, muitas vezes são pessoas bem jovens. Esse ano, em junho, nós tivemos uma usuária que veio para fazer a radioterapia, passou uma semana conosco, mas não estava bem. O médico mandou que ela retornasse para casa, para voltar ao médico que fez a cirurgia. Depois de cinco dias ela faleceu. Ela já estava com metástase cerebral. Ficamos muito chocadas, foi uma pessoa que não chegou nem a começar o tratamento. Mas esse tipo de coisa nós evitamos falar dentro da casa. Mas, é sempre muito positivo quando elas conseguem sair. Algumas mantém até hoje uma ajuda de R$ 10, R$20, todos os meses. É uma forma de agradecimento. Elas ligam, avisam que mandaram o dinheiro, falam que estão bem. Elas também divulgam, pedem para levar nosso panfleto. Algumas querem até levar nossos produtos para vender nas cidades.

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