Magna Coeli e a relação com grupo de rendeiras, tradição que passa de geração em geração

Magna Coeli é a estilista fundadora da marca Refazenda – Crédito: Gabriel Melo/Esp.

Fundadora da marca Refazenda, filha de pai alfaiate e mãe professora de corte e costura, Magna Coeli cresceu em meio as linhas e modelagens. Sua infância foi marcada pelo tecer da renda, o tempo que levava para ser produzida e a preciosidade ao deparar-se com o resultado final de cada uma delas. Esta experiência foi o suficiente para despertar em si o desejo de transformar o mercado nordestino, apostando na produção própria de tecidos locais e investido em uma moda sustentável.

Foi em meio a este ambiente, que Magna construiu a Refazenda, uma marca de roupas que une sustentabilidade e estilo, reverenciando a produção artesanal das rendeiras brasileiras. Ao relembrar o início de sua carreira, ela afirma que seu desejo não era apenas alcançar a rede fast fashion, mas disponibilizar um produto que pudesse impactar e inovar o mercado fashionista. Mais do que criar tendência, Magna quis desenvolver um comportamento através de uma cultura que é passada de gerações para gerações.

Magna Coeli, empresaria e estilista e Andre Queiroz, sócio diretor e filho – Crédito: Bruna Monteiro DP/D.A Press

Atualmente, dedica-se ao funcionamento da marca em parceria com milhares de mulheres responsáveis por produzir suas peças, mães que se dividem entre a rotina familiar e a arte de tecer. “Minha história com as rendeiras surgiu há muito tempo, fruto de uma admiração mútua. Como filha de costureira e em seguida como estilista e empresária de moda, também formada em serviço social, desenvolvi uma grande vontade de inserir essas pessoas no meu trabalho cotidiano, sem que isso fosse algo de filantropia ou assistência. Queria tê-las como parceiras de verdade. A dignidade que elas têm, a persistência, longevidade do ofício que é passado de mãe para filha, sempre me causou muito orgulho e por isso quis multiplicar e contribuir para que permanecesse”.

Sua relação com essas mulheres vai além dos vínculos profissionais e ela não esconde a admiração que carrega por cada uma. Mesmo com funcionárias a 400 km de distância, Magna afirma que é sempre um prazer poder entrar em contato com elas e que nem só de trabalho vivem as rendeiras. Assuntos familiares, casamento, doenças, comemorações… tudo isso é partilhado de forma amiga e verdadeira, o que para si é extremamente gratificante. “É muito bom ter parceiros que têm vida, que não sejam só fornecedores. Elas conciliam seu trabalho com os deveres domésticos de mãe, esposa, comerciante… São verdadeiras malabaristas. Talvez seja por isso tamanha paixão”, enfatiza Magna.

Fabrica de roupas Refazenda desenvolve o conceito de sustentabilidade na produção das peças e montagem das lojas – Crédito: Rodrigo Silva/Esp.DP/D.A Press

Além de ensiná-la sobre as responsabilidades de uma vida difícil, a estilista confessa sentir-se ganhadora com esse convívio que a faz refletir sobre seu papel social como mulher. Mesmo sendo pessoas de pulso firme e muita dedicação, seus trabalhos carregam uma forma de protesto e esperança. É através da renda que essas mulheres encontram uma oportunidade de valorizar seu lado feminino.

“A própria renda é algo delicado que necessariamente envolve o mundo feminino, mesmo em um ambiente inóspito, a maioria delas gosta do que faz porque o lado mulher se está presente, na delicadeza, nas cores ou no vestuário. Fazer renda significa poder se vestir da própria renda, o que as fazem se sentir mais bonitas, seguras e femininas. Isso é muito legal na descoberta, valorizar seu eu. É isso que visamos na Refazenda, reforçar sempre esse olhar.”

Fora do ambiente de trabalho, Magna propaga esse empoderamento também em meio a educação de seus filhos. Mãe de Marcos (36) e André (31), ela relembra o processo educacional e admite que uma de suas maiores preocupações sempre foi oferecer a sensação de liberdade e responsabilidade para tomar suas decisões. Seja na escolha da escola, hora de viajar, atividades, ou quaisquer situações rotineiras, a empresária buscava mostrar-se disponível para ajudá-los, mas nunca interferindo de forma coesiva.

Magna Coeli e seus dois filhos, Marcos Queiroz e André Queiroz – Crédito: Guilherme Verissimo/Esp DP/DA Press

Outro ponto que considera fundamental e afirma ter sido reflexo na formação da personalidade dos filhos é a sua disponibilidade para ouví-los e conversar. Mesmo tendo sido criada de forma severa e pouco aberta ao diálogo, Magna buscou oferecer aos rapazes uma relação aberta e franca, e ri admitindo que tal decisão a colocou em uma posição de ‘mãe maluquinha’.

Enquanto Marcos era esportivo, com muita energia e disposição, André era mais quieto, carinhoso e dependente, o que acabava cobrando tempos e comportamentos diferentes da mãe. Para ela, a profunda diferença entre os filhos foi um desafio enorme. Tamanhas dificuldades e desafios transformaram sua vida como mulher, profissional, filha e esposa. Ao falar sobre os sentimentos aflorados através da maternidade, Magna afirma que mesmo após 36 anos, quando viu o filho nos braços pela primeira vez, ainda sente como se estivesse revivendo essa cena diariamente. “Sempre fui uma filha que convivia muito com minha mãe, apesar da diferença de idade e gerações, entretanto quando meus filhos nasceram senti despertar uma felicidade enorme de tê-los saudáveis e de querer estar por perto e compartilhar de suas descobertas. Essa forma de ser feliz apenas por ser mãe sempre é algo muito presente em minha vida”, finaliza.

Leia também: 

 Coordenadora do projeto Mães por todas, Áurea Negromonte tem 420 filhos de alma
Programa Mãe Coruja Recife: “Posso ver como meu trabalho muda a realidade de uma família”, diz Cláudia Soares

Author: Eduarda Andrade

Compartilhe este post